Saiu no Diário Oficial e virou manchete antes mesmo de virar gestão. A coronel Glauce Anselmo Cavalli assume o comando-geral da Polícia Militar de São Paulo, e o governador Tarcísio de Freitas já embolsa o dividendo político de um gesto que custa zero em caixa e rende semanas de cobertura simpática. A nomeação é histórica, dizem. Histórica para quem, convém perguntar. Para os dois milhões de paulistas que sobrevivem na periferia sem saber se o próximo encontro com a farda termina em boletim de ocorrência ou em velório, a cor, o gênero e a biografia do comandante são detalhes decorativos. O que os atinge é a estrutura, e a estrutura continua intacta.
A PM paulista é, antes de qualquer coisa, uma rubrica orçamentária de grandeza industrial. São bilhões de reais por ano, arrancados do bolso do contribuinte via ICMS embutido no feijão, na gasolina e na conta de luz, para sustentar a corporação mais cara do hemisfério sul. Ninguém perguntou ao paulista se ele queria pagar por isso, ninguém lhe ofereceu um contrato opcional, ninguém lhe devolve um centavo quando o serviço falha. A troca de comandante não mexe numa vírgula desse arranjo. A folha continua lá, os fornecedores de coletes, viaturas e munição continuam lá, os fundos de pensão do oficialato continuam lá. Quem paga segue sendo o mesmo sujeito de sempre. Quem recebe também.
Convém lembrar de onde veio essa instituição. Nasceu como guarda pretoriana para proteger lavouras de café de levantes de escravos e, depois, para reprimir greves operárias em nome do sossego das elites republicanas. Mudou de uniforme, mudou de nome, mudou de doutrina no papel, e permanece fazendo exatamente o que sempre fez: guardando a ordem que interessa a quem manda. A inovação simbólica de agora, uma mulher no topo, é daquelas que agradam o editorial da grande imprensa sem custar um único privilégio a quem de fato decide. O poder só cede o que não lhe dói perder, e nunca cede aquilo que garante sua continuidade.
Há uma lógica elementar que os aplaudidores profissionais fingem não enxergar. Se a corporação era boa antes, por que era dirigida exclusivamente por homens durante quase dois séculos. Se era ruim, por que agora se celebra a permanência da mesma corporação sob nova chefia, sem reforma, sem auditoria, sem uma única medida concreta contra os desvios que a imprensa séria documenta há décadas. As duas leituras se anulam e a única que sobra é a mais constrangedora: a cerimônia não é sobre a PM, é sobre o governador. Ele ganha um troféu de modernidade a preço de decreto, pago com o dinheiro e a segurança alheios.
A propaganda identitária funciona como aquelas pinturas renascentistas em que o príncipe encomenda o próprio retrato disfarçado de santo protetor dos pobres. O tamanho do palácio não muda, a altura dos muros não muda, o peso dos impostos não muda. Muda apenas o verniz. E o verniz tem uma função muito específica: deslocar o debate de onde deveria estar, ou seja, nos abusos, na letalidade, no custo, na ineficiência, na blindagem corporativa, e jogá-lo para o terreno confortável das efemérides. Quem discute estrutura é chamado de reacionário. Quem aplaude a fotografia recebe selo de progressista. É um golpe de ilusionismo tão velho quanto o próprio ofício de governar.
No fim, resta ao paulista comum a mesma velha equação. Continua pagando a conta, continua sujeito ao mesmo aparato, continua sem ter para onde recorrer quando o aparato falha ou se excede, e ainda é convocado a bater palmas pela novidade cosmética. Troca-se o rosto no pódio, preserva-se o poder na engrenagem. A pergunta honesta, aquela que separa o cidadão adulto do súdito entretido, permanece de pé: quem paga e quem recebe. Enquanto a resposta for a mesma de cem anos atrás, toda celebração é apenas a música da orquestra enquanto o navio faz água.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.