O placar diz pouco e o gol de Luciano diz menos ainda. O São Paulo venceu o Mirassol, engatou a segunda vitória seguida e os locutores trataram o feito como redenção bíblica, como se cada bola na rede apagasse uma temporada inteira de tropeços. O torcedor comemora, o cartola sorri para a câmera, o narrador transborda adjetivos. Enquanto isso, ninguém pergunta a coisa óbvia: por que um clube com folha salarial de gigante europeu precisa de tanta euforia para vencer um time que, há dois anos, jogava no anonimato do interior paulista?
O futebol brasileiro é o último teatro grego com bilheteria garantida. Vinte e quatro horas antes do apito, o tricolor já havia faturado em direitos de transmissão, patrocínio de camisa, cota fixa de campeonato e aquela verba misteriosa que a federação chama de premiação por desempenho. O resultado em campo é quase um detalhe contábil, um pretexto. Vence ou perde, o caixa entra. E quando entra, some por canos que nenhum conselheiro consegue rastrear, porque as auditorias dos clubes de São Paulo têm a transparência de um vidro fosco numa sauna.
Luciano fez o gol, certo. Mas Luciano custa, e custa caro, e quem banca esse custo no fim das contas é o sujeito que pagou cento e oitenta reais pelo ingresso, ou os trezentos mil sócios torcedores debitados todo mês, ou o consumidor que comprou a cerveja patrocinadora cujo preço embute a fortuna repassada ao clube. A bola rola de graça para quem está no gramado e cobra pedágio de todo o resto. É o velho arranjo: poucos jogam, alguns mandam, milhões pagam. Funcionou na Roma das corridas de bigas, funciona em Morumbi.
O Mirassol, coitado, faz o papel do figurante necessário. Subiu, surpreendeu, e agora serve de degrau para a narrativa de reação tricolor. Veja o paradoxo: o mesmo campeonato que se vende como meritocrático distribui cotas de TV de forma profundamente desigual, garantindo que os grandes nunca caiam de fato e que os pequenos nunca cresçam de verdade. Chamam isso de competição. Em qualquer outro setor, chamariam de cartel, e o Cade já teria batido na porta. No futebol, chama-se tradição, e ninguém ousa mexer.
Há ainda a cena política, sempre presente, sempre ignorada. Estádios construídos com dinheiro público, isenções fiscais renovadas a cada lei de incentivo, dívidas tributárias parceladas em prazos que envergonhariam um agiota arrependido. O torcedor, que paga imposto sobre o salário, paga imposto sobre o ingresso, paga imposto sobre a cerveja e paga imposto sobre a camisa, financia três vezes a mesma festa e ainda agradece pela honra. Se isso não é confisco com hino e bandeira, o conceito perdeu o sentido.
Então comemore o gol de Luciano, claro. Mas saiba que a vitória mais consistente do dia não foi a do tricolor, foi a da engrenagem que monetiza paixão alheia há um século e segue intocada, blindada por uma classe dirigente que troca de cadeira mas nunca de método. Quem paga, paga sem ver. Quem recebe, recebe sem prestar contas. E quem aponta o arranjo é chamado de chato, de azedo, de inimigo do esporte. Pois bem: prefiro ser chato do que continuar batendo palma para mágico que tira o coelho do meu próprio bolso.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.