Domingo, dezesseis horas, Cícero de Souza Marques. São Paulo e Bahia disputam três pontos no Brasileirão e o país inteiro se acomoda no sofá com a serena convicção de que o futebol é o último refúgio gratuito da existência. Rádio na Jovem Pan, YouTube aberto, imagens na Globo, sinal fechado no Premiere. Quatro janelas para o mesmo espetáculo. Quem nunca parou para perguntar por que tanta generosidade audiovisual converge sobre vinte e dois rapazes correndo atrás de uma bola provavelmente também acredita que almoço de político sai do bolso do político.
O futebol brasileiro é a operação mais sofisticada de transferência de renda que este país já produziu, e funciona porque ninguém percebe que está pagando. O torcedor jura que vê o jogo de graça, mas a gratuidade é a ilusão de óptica mais antiga do comércio humano. Você paga na conta de luz que sustenta a antena, paga no preço da cerveja patrocinadora, paga no plano de celular que carrega o streaming, paga no imposto embutido na camisa oficial, paga no BNDES que financiou o estádio, paga na Lei de Incentivo ao Esporte que abate tributo de empresa amiga, paga na renúncia fiscal concedida ao clube que se diz associação sem fins lucrativos enquanto movimenta cifras de multinacional. A bola rola, e três trilhas paralelas de dinheiro rolam junto com ela, todas saindo do mesmo lugar e chegando em poucos endereços muito específicos.
O império romano entendeu antes de qualquer um que povo entretido não conta moeda. A diferença é que o senado romano ao menos confessava o arranjo: pão e circo, dois substantivos, sem pudor. Aqui o circo virou indústria e o pão virou boleto, mas a estrutura é idêntica. Enquanto a torcida grita gol, o Congresso aprova pacote de socorro a federação endividada, prefeitura perdoa IPTU de estádio que ninguém mais usa fora dos noventa minutos do domingo, e dirigente cartola que jamais venceu uma eleição direta na vida decide o destino de bilhões em direitos de transmissão. Os mesmos que cobram CPI de qualquer estatal silenciam quando a CBF apresenta balanço. Coincidência é palavra para quem não acompanha cotação.
Repare na mecânica. O clube acumula prejuízo recorde, o presidente sai aplaudido, a dívida é refinanciada pelo banco público, e na temporada seguinte o mesmo elenco recebe reforço milionário sob aplausos da imprensa esportiva, que por acaso vive de cotas dos mesmos clubes. O cronista que ousasse fazer a conta básica de quanto custa cada gol pago pelo contribuinte seria expulso da sala de imprensa antes do segundo tempo. Por isso ninguém faz. A omissão não é incompetência, é folha de pagamento. A premissa é simples: clube que vive de subsídio não é clube, é autarquia disfarçada de paixão. A conclusão segue sozinha, e dói.
O mais saboroso é o moralismo seletivo. O cidadão que reclama de fila no SUS aceita sem piscar que estádio padrão FIFA fique vazio onze meses por ano custando manutenção pública. O mesmo eleitor que xinga deputado por mordomia bate palma quando o craque do peito recebe salário de banqueiro suíço pago indiretamente por isenção tributária que sai do orçamento da educação. A guerra cultural que importa não é a das bandeiras nas arquibancadas, é a que convenceu o pobre a financiar o luxo do rico chamando a operação de lazer popular. Funcionou tão bem que virou consenso, e quando todo mundo concorda com algo neste país, é hora de desconfiar dobrado.
Assista ao jogo, torça, beba sua cerveja, grite seu gol. O espetáculo é legítimo, o problema nunca foi a bola. O problema é o esquema montado em volta dela, a estrutura paralela que usa a paixão genuína como anestesia para o bolso. Quando o apito final soar e a manchete de segunda-feira disser quem venceu, lembre que o placar verdadeiro nunca aparece no telão. Quem paga é sempre o mesmo, quem recebe também, e o intervalo comercial existe justamente para você não ter tempo de fazer essa conta.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.