A cena é quase cômica, se não fosse trágica. Uma parlamentar aponta que o Ministério da Saúde firmou contrato com uma organização não governamental que defende publicamente procedimentos de transição de gênero para crianças e adolescentes, e a resposta oficial, em vez de explicar o contrato, acusa a denunciante de fazer "palanque político". Reparem no truque retórico, velho como a política: quando não se pode negar o fato, nega-se a legitimidade de quem aponta o fato. É o equivalente burocrático do marido flagrado no motel que, em vez de explicar o que faz ali, xinga a esposa de enxerida.
O ministério afirma, solenemente, que "não permite, não recomenda e nem custeia" intervenções do tipo em menores de dezoito anos. Ótimo. Então por que, precisamente, paga uma entidade cuja bandeira central é defender esse tipo de intervenção? Há uma diferença gritante entre custear o procedimento e custear o lobby que prepara o terreno para o procedimento. É a mesma lógica do traficante que jura nunca ter encostado em droga porque só financia o laboratório. A separação contábil não limpa a aliança ideológica; apenas a disfarça com a estética asséptica do empenho público.
Sigamos a trilha do dinheiro, porque ela nunca mente, ainda que os ministros sim. Quem paga essa conta? O contribuinte, naturalmente, aquele sujeito que acorda às cinco da manhã, pega condução lotada, e sustenta com o próprio suor um aparato que lhe cobra imposto para financiar uma agenda cultural que ele jamais aprovou em urna alguma. Quem recebe? A ONG, que transforma subsídio estatal em militância, militância em relatório, relatório em novo contrato, e assim gira a engrenagem. É o ciclo perfeito: o Estado cria o problema, terceiriza a solução para o amigo, e cobra do inimigo a fatura. A República das comadres, com carimbo do Tesouro.
Dizem que é por compaixão, claro. Sempre é. A tirania moderna aprendeu que não precisa mais de canhões, basta dos substantivos certos. Chame de saúde, chame de direitos, chame de inclusão, e qualquer ingerência na família, na consciência e na integridade corporal de uma criança vira dever sagrado do Estado. Nos séculos passados, rei absoluto intrometia-se na religião dos súditos em nome da salvação da alma; hoje o burocrata intromete-se na biologia dos filhos alheios em nome da saúde mental. Mudou o pretexto, não mudou o método. Quem manda no corpo da criança, em última instância, manda na sociedade inteira, porque toma posse do único território que o Estado ainda não havia plenamente ocupado.
A lógica, entretanto, é impiedosa e não se curva ao comunicado de imprensa. Se o ministério não apoia a prática, então o contrato é incoerente e deve ser rescindido de imediato; se apoia, então o comunicado é mentira e a ministra que o assinou deveria cair. Uma das duas premissas está errada, não há terceira opção no silogismo. A tentativa de ficar com as duas coisas ao mesmo tempo, negar publicamente e pagar privadamente, é a essência de todo governo que já perdeu a vergonha de ser flagrado. Governo que mente sobre onde põe o dinheiro já decidiu que o cidadão é o inimigo a ser enganado, não o patrão a ser servido.
No fim, a pergunta que abre e fecha toda análise honesta volta a bater à porta. Quem paga? Você, que nem foi consultado. Quem recebe? Uma entidade que milita por algo que você provavelmente recusaria com nojo se lhe perguntassem à queima roupa na fila do pão. E quem fica no meio? A criança, esse ser que não vota, não paga imposto, não tem voz, e que por isso mesmo virou o território mais cobiçado pelos engenheiros de almas que se instalaram no orçamento. O rei está nu, senhoras e senhores, e ainda tem a coragem de dizer que a nudez é uniforme de gala.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.