O senador do Piauí, aquele mesmo que comanda a engrenagem do Centrão como quem opera uma máquina de fliperama com fichas alheias, resolveu encarnar a estátua da Justiça com venda nos olhos para opinar sobre o filho do Bolsonaro. "Se for culpado, tem que pagar", disse, com a serenidade de quem nunca precisou explicar nada a ninguém. A frase, isolada, é trivial. No contexto, é uma comédia. É como ouvir um cobrador de pedágio recitar parábolas sobre desapego material.
Convém olhar para a mão que segura o microfone antes de aplaudir o discurso. O homem que descobriu a virtude republicana é o mesmo que durante anos transformou o Orçamento da União num bufê livre, distribuindo emendas como hóstias entre deputados famélicos, em troca de votos, ministérios e aquele silêncio cumplice que vale ouro em Brasília. O dinheiro do contribuinte, aquele suado e descontado em folha antes mesmo de chegar à conta, virava cimento em prefeitura de compadre, virava cargo para sobrinho, virava palanque para 2026. E agora o sumo sacerdote do balcão pede investigação alheia com voz embargada.
Há uma lógica geométrica nisto, dura como tijolo. Se o critério é investigar todo mundo, ótimo, comecemos pelo começo. Quem opera a caixa registradora do Congresso há mais de uma década merece auditoria mais rigorosa do que qualquer herdeiro de presidente. Premissa: político que controla a torneira do dinheiro público concentra poder. Premissa menor: poder concentrado sem fiscalização corrompe na razão direta do montante. Conclusão inevitável: o senador deveria estar não na tribuna moralizando, mas na fila do depoimento, com o número da senha na mão.
O truque é antigo e funciona porque a plateia tem memória curta e estômago forte. Sempre que o jogo aperta, o fisiologista descobre princípios. Sempre que o adversário tropeça, o cínico vira catequista. Em Roma, no século primeiro, os senadores que mais discursavam contra a corrupção eram aqueles que tinham acabado de saquear uma província. Mudaram-se as togas, as línguas, os palácios. A coreografia permanece idêntica, porque o incentivo permanece idêntico. Quem vive da máquina precisa, vez por outra, pintar a máquina de branco para o povo achar que está limpa.
O detalhe que ninguém quer enxergar é que a frase do senador serve a dois patrões ao mesmo tempo. Para a opinião pública desavisada, soa como gesto de equilíbrio, de senador estadista preocupado com a Justiça. Para a engrenagem do Centrão, é um aceno ao Supremo, ao governo, ao próximo arranjo. Investigar o filho do inimigo custa zero e rende dividendos por anos. É o tipo de altruísmo que sai barato, paga juros e ainda vem com cafezinho. Quem paga essa conta, no fim, é sempre o mesmo coitado que financia o circo desde 1988 e não recebe nem ingresso na entrada.
Que se investigue o filho do Bolsonaro, claro. E o filho do Lula. E o senador. E o ministro. E o desembargador que assina liminar de madrugada. E o procurador que arquiva inquérito na sexta antes do feriado. O problema não é a investigação, é a seletividade com que se distribui o bisturi. Quando o moralismo é monodirecional, ele deixa de ser justiça e vira arma. E arma na mão de quem controla o cofre é a coisa mais perigosa que existe na República, porque dispara sempre para o mesmo lado, e o lado nunca é o de quem paga a munição.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.