Ciro Nogueira subiu ao palanque da sabedoria política na semana passada para informar ao senador Flávio Bolsonaro que candidatos de "extrema-direita" estão fadados a perder. O presidente do PP, partido que já apoiou Lula, Dilma, Bolsonaro e praticamente qualquer coisa que tivesse orçamento para distribuir, descobriu de repente uma vocação pedagógica. É comovente. Um homem que passou a vida inteira surfando nas marés do poder, ajustando suas convicções ao sabor dos cargos disponíveis, resolveu ensinar ao filho do ex-presidente a arte de ser palatável. Como se o problema da política brasileira fosse excesso de princípios.

Vamos ao silogismo simples que a imprensa evita construir: o PP e o União Brasil formam uma federação que existe para maximizar o acesso a cargos e verbas federais. Todo apoio que essas legendas oferecem vem com uma fatura. O candidato que aceitar o guarda-chuva deles precisará, no momento em que chegar ao poder, honrar os compromissos implícitos feitos durante a campanha. Portanto, quando Nogueira diz que Flávio precisa "unificar o país" e focar em "segurança, saúde e educação", ele não está descrevendo um projeto de governo. Está descrevendo um cardápio de ministérios. Segurança é uma pasta. Saúde é um orçamento gigantesco. Educação é um aparato burocrático imensurável. Dizer que a campanha deve ser sobre esses temas é o equivalente político de dizer: "deixa eu te ajudar a carregar essa mala pesada, e depois a gente vê como divide o conteúdo."

O rótulo "extrema-direita" é uma arma de posicionamento, não uma descrição. Ninguém no Brasil sabe ao certo o que significa. O que se sabe é que, na prática política, o termo funciona como cercado elétrico: quem cruza a linha perde o acesso ao dinheiro do sistema. Não perde votos, necessariamente. Perde a cobertura, perde o financiamento, perde o apoio dos partidos que vivem de estar no governo independentemente de quem governe. O Centrão não teme o radicalismo ideológico. Teme o candidato que chegue ao poder sem precisar deles. Um político verdadeiramente independente é a ameaça existencial do sistema. Um "moderado" que precisa de quarenta partidos para montar base parlamentar é o sonho deles. A moderação que Nogueira pede não é uma virtude cívica. É um pré-requisito contratual.

Há uma ironia histórica difícil de ignorar. O PP, herdeiro de legendas que passaram pela ditadura, pela Nova República, pelo PT e pelo bolsonarismo sem jamais perder um assento de relevância, aconselha alguém sobre como ser palatável ao eleitor. É como um camaleão dando aula de autenticidade. A trajetória do partido é um museu do oportunismo funcional, e isso não é insulto, é descrição técnica. O problema começa quando esse oportunismo se veste de conselho estratégico e a imprensa trata o discurso como análise política séria, em vez de negociação de bastidor transmitida ao vivo. O que Nogueira está fazendo é uma proposta velada. E a resposta de Flávio, qualquer que seja, é uma contraproposta. O eleitor não está na mesa.

O que financia a "unidade nacional" que o PP prega? Impostos. O que paga os ministérios que virão com o pacote de apoio? Impostos. O que remunera a burocracia que administra as políticas de "saúde, segurança e educação" pelas quais o Centrão tanto suspira? Impostos. Cada real que entra no cofre público saiu antes do bolso de alguém que trabalhou para tê-lo, e a questão política real é sempre a mesma: quem decide para onde esse dinheiro vai. A resposta honesta é: quem tiver mais cadeiras na mesa de negociação. O conselho de Nogueira a Flávio não é "seja melhor para o Brasil". É "venha ser compatível com nossa mesa". O eleitor que vê nisso um gesto de magnanimidade está olhando para o mágico e ignorando o que a outra mão está fazendo.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.