O secretário de Defesa dos Estados Unidos, num culto ecumênico dentro do Pentágono, diante de generais, oficiais e uniformes engomados, abriu a boca e recitou com solenidade litúrgica um trecho que ele apresentou como Ezequiel 25:17. Só havia um problema minúsculo, daqueles que só importam para quem ainda acredita em coisas como verdade, texto, realidade: o trecho não existe na Bíblia. Foi escrito por um diretor de cinema para um matador de aluguel interpretado por Samuel L. Jackson, num filme em que maletas brilham, gângsteres discutem hambúrguer francês e um homem é baleado dentro de um carro por acidente. O homem responsável pelo arsenal nuclear da maior potência militar da história leu, em tom de pregação, a fala de um assassino fictício. E ninguém no recinto riu. Esse detalhe é mais grave que a gafe.
Há algo de profundamente revelador quando o poder se encena como piedade. Reis antigos já se cobriam de púrpura e invocavam deuses para legitimar impostos, guerras e degolas. A fórmula é velha como a primeira cidade murada: o sacerdote abençoa, o soldado executa, o súdito paga. Muda a liturgia, muda o figurino, o mecanismo continua idêntico. O que se viu no Pentágono foi apenas a versão contemporânea dessa encenação, com a única diferença de que o sacerdote agora consulta roteiros de Hollywood em vez dos profetas. E o contribuinte americano, que sustenta com quase um trilhão de dólares anuais aquela estrutura, recebeu o espetáculo de graça, ou melhor, pagando duas vezes: uma pelo salário do ministro, outra pela hora de expediente dos fardados convocados a ouvir sermão falsificado.
Repare no arranjo. Um funcionário público usa o prédio público, em horário público, pago com dinheiro tomado à força de cada cidadão que trabalhou naquele mês, para promover um culto religioso de sua preferência pessoal. Se um servidor qualquer decidisse ler o Corão, o Bhagavad Gita ou o manifesto comunista no mesmo púlpito, haveria escândalo, processo, capa de jornal. Mas quando é a religião certa, usada pela tribo certa, no momento certo da campanha eleitoral perpétua, vira ato de coragem cívica. A mesma Constituição que, em teoria, separa igreja e Estado, dobra-se conforme a conveniência do chefe de plantão. A regra vale para o inimigo, a exceção vale para o amigo. É assim que a lei vira instrumento, e deixa de ser limite.
O detalhe tarantinesco é o que dá graça trágica ao episódio. Um homem encarregado de decidir vida e morte em escala planetária, com códigos nucleares a um botão de distância, confunde o Antigo Testamento com a dublagem de um thriller de 1994. E o faz diante de militares que, em tese, deveriam ter alguma familiaridade com precisão, hierarquia de fontes, cadeia de comando. O episódio denuncia a qualidade intelectual do séquito que ocupa hoje os altos gabinetes: gente que leu pouco, leu mal, e confunde estética com substância. O espírito do tempo premia a pose, não o estudo. O chefe declama, os subordinados ouvem, e se alguém no fundo da sala percebe a bobagem, cala, porque no circo do poder quem ri do palhaço coroado perde o emprego.
A pergunta que ninguém fez, porque incomoda demais, é simples. Por que existe culto dentro do Pentágono? Por que a máquina bélica mais sofisticada já construída precisa de unção religiosa para funcionar? A resposta é antiga e conhecida por qualquer leitor atento da história das tiranias: o poder bruto sozinho não basta, ele exige uma mitologia que o santifique. Pão e circo não eram apenas distração, eram consagração. Quando o secretário de guerra invoca passagens inventadas como se fossem revelação divina, ele não está errando por ignorância, está acertando por instinto. O Estado moderno precisa de verniz sagrado justamente porque, sem ele, aparece nu, como o que sempre foi: a instituição que cobra tributo sob pena de prisão e distribui o produto entre seus padrinhos.
No fim da encenação, a conta permanece aberta e a resposta permanece a mesma de sempre. Quem paga é o pedreiro de Ohio, a enfermeira do Texas, o caminhoneiro de Wyoming, que nunca foram convidados para aquele culto, nunca votaram naquele roteiro, e nunca assinariam cheque voluntário para financiar a performance religiosa do seu ministro da guerra. Quem recebe é o próprio ministro, que ganha manchete, engorda o mito pessoal, constrói biografia para a próxima eleição, e os generais presentes, que carimbam no rosto a expressão de fé encomendada pelo chefe. No meio, entre o pagador involuntário e o beneficiário agraciado, fica a Bíblia usada como adereço, o texto sagrado reduzido a efeito especial, e a verdade, essa velha incomodada, expulsa da sala junto com o riso que ninguém teve coragem de soltar.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.