O país arde, o salário evapora antes de cair na conta, o Estado engole quase metade de tudo que se produz, e a manchete que aterrissa na sua tela é um catálogo de seis nomes de meninas que, supostamente, transmitem paz. Não é piada. É a pauta. Enquanto se discute orçamento secreto, juros estratosféricos e a próxima rodada de impostos camuflados de contribuição, a indústria do clique resolve oferecer ao leitor um chá de bebê travestido de jornalismo. Há um nome para isso, e não é informação. É anestesia.
Convém olhar a coisa com a frieza de quem já viu esse filme antes. A imprensa que se vende como guardiã do interesse público gasta caracteres preciosos com listas de nomes açucarados pela mesma razão que circos romanos distribuíam pão: porque é barato produzir, é barato consumir, e mantém a plateia mansa. Cada parágrafo dedicado a explicar que tal nome significa serenidade é um parágrafo que não foi gasto perguntando por que a conta de luz subiu, por que o combustível anda preso a uma estatal que ninguém controla, por que cada reforma tributária aumenta o tamanho do bolso que confisca. A pauta fofa não é inocente. Ela ocupa o lugar da pauta dura.
Siga o rastro do dinheiro e a névoa se dissipa rapidinho. Conteúdo de berçário existe porque é uma máquina de tráfego, e tráfego vira anúncio programático, e anúncio programático vira receita sem que ninguém precise pisar num gabinete para investigar nada. É a versão digital do bolinho de carne que se vende na entrada do estádio: ninguém come por fome, come por tédio, e o lucro mora exatamente nessa diferença. O leitor pensa que está sendo presenteado com uma curiosidade leve, quando na verdade está sendo aluguel ambulante para um banner. Calma e doçura, segundo a manchete. Calma e doçura para o caixa do portal, na realidade.
O detalhe semântico, esse, vale uma parada. Vendem nomes que evocam paz, proteção, esperança. Belas palavras, todas elas, e justamente as mais sequestradas pelo poder ao longo dos séculos. Quem mais fala em paz costuma ser quem mais financia guerra. Quem mais promete proteção costuma ser quem mais cobra pedágio. Quem mais distribui esperança costuma ser quem mais administra a próxima decepção. Ensina-se a menina a carregar um nome de serenidade num país onde serenidade é privilégio de quem tem patrimônio para se defender da próxima canetada. Pintar a placa de paz na porta da casa não impede que o coletor de tributos entre. Apenas faz com que o morador sorria enquanto é esvaziado.
Há ainda o problema lógico, que é o mais divertido de todos. Um nome não confere virtude alguma. Premissa: chamar a criança de algo doce. Premissa adicional: o mundo continua exatamente o mesmo lá fora. Conclusão: a doçura é decoração, não armadura. A criança crescerá num ambiente em que sua propriedade não é dela, seu salário não é dela, sua privacidade está num servidor qualquer, e o nome bonito não desconta um centavo de imposto, não derruba uma regulação, não devolve uma liberdade. Vender o nome como portador de destino é a mais antiga das superstições, repaginada com tipografia bonita e foto de bebê dormindo. Antes era o oráculo cobrando moeda, hoje é o portal cobrando impressão de página. O figurino muda, o golpe é o mesmo.
Quem paga essa festa, no fim, é quem sempre paga: o leitor, que troca atenção por bobagem, e a cidadã que crescerá ouvindo que o nome dela carrega paz num país que cobra caro por cada respiro. Quem recebe é o portal que monetiza desatenção, é a redação que entrega volume sem risco, é o poder que adora ver a opinião pública entretida com sílabas. Da próxima vez que aparecer uma lista assim, vale a pergunta simples, daquelas que envergonham o emissor: que escândalo está sendo enterrado debaixo desse cobertor de algodão doce? Porque jornalismo de verdade não embala ninguém para dormir. Acorda. E quando precisa, morde.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.