O Senado aprovou a criação da Universidade Federal do Norte de Mato Grosso, que nada mais é do que pegar o campus da UFMT em Sinop, trocar a placa da fachada e declarar, com pompa de inauguração de obelisco, que nasceu uma nova instituição. A retórica oficial fala em ampliar o acesso ao ensino superior, expressão mágica que funciona como abracadabra parlamentar: pronunciada com solenidade suficiente, abre cofres, cria cargos e silencia qualquer pergunta inconveniente sobre quem paga a festa. E a pergunta, leitor, é sempre a mesma, e você já sabe a resposta antes mesmo de eu terminar a frase.
Quem paga é o sujeito que acordou hoje às cinco da manhã para encarar duas conduções até a obra, o comerciante que recolhe ICMS embutido em cada saco de cimento, o produtor rural que financia, via tributo, a generosidade alheia de senadores que jamais colocarão um centavo do próprio bolso na empreitada. Quem recebe é a casta administrativa que floresce em torno de cada nova sigla federal: reitoria, pró reitorias, assessorias, gabinetes, comissões, gratificações, diárias, passagens, cargos comissionados que se reproduzem como coelhos em primavera úmida. O campus já existia, os professores já estavam lá, os alunos já estudavam. O que não existia era o organograma novo, e organograma é, no Brasil, a forma mais elegante de transformar tinta em folha de pagamento vitalícia.
Há um silogismo desconfortável que ninguém quer formular em voz alta no plenário. Se a universidade que se desmembra já oferecia o serviço, então o desmembramento não cria vagas, cria estrutura. Se cria estrutura sem criar vagas proporcionais, então o objetivo declarado é falso. Se o objetivo declarado é falso, o objetivo real está em outro lugar, e esse outro lugar tem nome, sobrenome, filiação partidária e base eleitoral em Sinop. A conclusão se impõe sozinha, sem precisar de muleta ideológica: cria se uma universidade pelo mesmo motivo pelo qual se cria um município, uma comarca ou uma agência reguladora. Para abrir vagas de comando que pagam dividendos políticos por décadas.
O brasileiro foi treinado a aplaudir a multiplicação dos pães federais como se fosse milagre, quando é apenas matemática às avessas. Na Roma tardia, quando o império já não conseguia pagar suas legiões, a solução foi multiplicar títulos, dividir províncias e criar prefeituras dentro de prefeituras, cada qual com sua corte, seu séquito e sua sangria fiscal. O resultado todos conhecem, e ele não envolveu prosperidade. A diferença é que aqui se faz isso em nome do progresso, do interesse social, do desenvolvimento regional, três expressões que, quando aparecem juntas em um projeto de lei, deveriam acender no contribuinte o mesmo alarme que acende no porco quando o fazendeiro chega com a faca afiada e um sorriso amplo demais.
Repare ainda no detalhe que escapa às manchetes festivas. Ninguém mostra a planilha. Ninguém apresenta o custo de implantação, a folha projetada para dez anos, o passivo previdenciário que se está criando, os reajustes automáticos que virão por decisão judicial dentro de cinco anos. Ninguém compara o custo por aluno formado dessa nova instituição com o custo por aluno formado em qualquer faculdade privada do mesmo município, porque a comparação seria constrangedora demais para sobreviver à luz do dia. Onde falta planilha, sobra discurso, e onde sobra discurso é porque a aritmética foi convidada a se retirar da sala antes da votação.
O acesso ao ensino superior, esse coitado, segue sendo o álibi de luxo para qualquer expansão da máquina. Como se a única forma concebível de educar um jovem do norte de Mato Grosso fosse cravar lá um aparato burocrático com brasão na parede e estatuto no Diário Oficial. Existem mil maneiras mais baratas, mais rápidas e mais honestas de levar conhecimento para onde ele faltar, mas todas elas têm um defeito incurável aos olhos do legislador: não geram cargo de reitor. E sem cargo de reitor, sem assessorias, sem nomeações, sem palanque de inauguração, o projeto perde aquilo que o torna irresistível em Brasília. Perde o cheiro de poder. E poder, no fim, é a única matéria que se ensina com proficiência absoluta dentro do Congresso Nacional.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.