O senador levanta a mão, aperta o botão, faz cara de estadista e aprova um piso salarial de R$ 5.130,63 para o professor da educação básica de todo o país. Aplausos, fotos, hashtags, vídeo no Instagram dizendo que finalmente o magistério foi valorizado. Há apenas um detalhe que escapa do roteiro: nenhum desses senhores que votaram a generosidade vai tirar um centavo do próprio salário, nem do orçamento da Casa, nem do fundo partidário, nem dos auxílios paletó, moradia e babá. A conta cai inteira no colo do prefeito de Coronel Macedo, de Buritirama, de Joaquim Távora, dessas cidadezinhas que o senador nunca pisou e cujo nome aprende a pronunciar apenas em ano eleitoral.
Repare na engenharia do truque, porque ela é antiga e funciona desde que o mundo é mundo. Quem decreta o benefício colhe a fotografia e o voto agradecido da categoria; quem paga a fatura é um terceiro que não estava na sala, não foi consultado e não pode recusar. O eleitor de boa fé enxerga o aumento e atribui ao parlamentar federal a virtude da bondade. O municipalismo, este coitado eternamente espremido entre a Constituição que lhe entrega obrigações e o Tesouro Nacional que retém os recursos, recebe mais uma despesa carimbada para administrar com a receita que não cresceu. É a velha arte de ser caridoso com o dinheiro alheio, e o Senado domina essa técnica como ninguém.
Convém olhar o número antes que ele hipnotize. Fala-se em reajuste de 5,4%, com ganho real de 1,5 ponto acima da inflação oficial. Inflação medida por qual cesta, calculada por qual instituto, sob quais pesos políticos convenientes? A mesma cesta em que o quilo da picanha sumiu para dar lugar ao quilo do peito de frango, em que o aluguel pesa pouco porque o IBGE supõe que todos moramos na casa própria quitada? O ganho real, esse fantasma estatístico, é cantado em verso e prosa enquanto o professor real, de carne e osso, percebe que o supermercado subiu mais do que a tabela admite. A inflação não é fenômeno meteorológico que cai do céu, é resultado direto da máquina de imprimir dinheiro que sustenta exatamente o palanque onde o senador discursa sobre valorização.
Há ainda a pergunta que ninguém faz, porque fazê-la quebra o encanto. Por que o piso do professor precisa ser definido por uma assembleia de bacharéis em Brasília, e não pela escola, pelos pais, pela comunidade, pelo município que conhece a realidade do salário possível e do orçamento real? A resposta está na própria estrutura do arranjo: centralizar a decisão significa centralizar o crédito político, e centralizar o crédito político significa que o burocrata federal vira herói, enquanto o gestor local vira o vilão que não tem dinheiro para cumprir a lei. O prefeito que ousar reclamar será chamado de inimigo da educação, embora seja apenas alguém que sabe somar.
E o professor, este personagem invocado o tempo todo em terceira pessoa, segue ganhando menos do que deveria, com salas lotadas, infraestrutura sucateada, currículo decidido por militante de gabinete e formação universitária capturada por modismo ideológico. O piso aprovado não resolve nenhum desses problemas; serve apenas para que o parlamentar diga que fez algo, para que o sindicato venda a vitória ao filiado, para que o ministério produza um release triunfalista. No fim do ano letivo, o aluno continuará saindo do nono ano sem saber interpretar texto, e a culpa, claro, será do mercado, do capitalismo, da falta de mais aumentos decretados de cima.
Quem paga, no fundo, é sempre o mesmo: o sujeito anônimo que acorda às cinco da manhã, paga IPTU, paga IPVA, paga ICMS embutido no pão, paga imposto de renda na folha e ainda ouve o senador dizer, no telejornal, que o Estado foi generoso. Generoso com o quê, com o suor de quem? A mágica do confisco bem feito é justamente essa: tirar de muitos um pouquinho de cada, distribuir para poucos uma fatia visível, e convencer todo mundo de que aquilo é justiça social. O rei está nu há muito tempo, mas a corte aplaude o manto invisível com entusiasmo crescente, e quem aponta o óbvio passa por mal-educado.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.