Na terça-feira, 28, o Senado dos Estados Unidos rejeitou o projeto do democrata Tim Kaine que tentava amarrar a mão do presidente antes de qualquer ação militar contra Cuba. A proposta era modesta, quase tímida: exigia que, antes de mandar bombas para a ilha, o ocupante da Casa Branca passasse pelo crivo do Congresso, conforme manda, aliás, a própria Constituição americana, aquele documento que todo senador jura defender e ninguém lê desde 1947. O resultado da votação é menos uma derrota legislativa e mais uma confissão: o legislativo abdicou, há décadas, daquilo que era sua única função relevante em política externa, declarar guerra. Hoje declara apenas a própria irrelevância.
Convém lembrar que a Constituição que tanto adoram citar nos discursos eleitorais reservava ao Congresso, e somente a ele, o poder de declarar guerra. A lógica era simples e brutal: quem assina o cheque decide a compra. Se o povo paga o sangue e o imposto, o povo, através de seus representantes, autoriza o massacre. Mas desde a Coreia, passando pelo Vietnã, Iraque, Líbia, Síria, Iêmen e mais meia dúzia de aventuras com nomes de operação cinematográfica, o presidente americano virou imperador romano em horário comercial. Bombardeia primeiro, comunica depois, e o Congresso aplaude de pé porque aplaudir é mais barato que assumir responsabilidade.
Pergunta incômoda, daquelas que nenhum editorial do New York Times faz: quem ganha com Cuba na mira? A ilha é um arquipélago falido, governada por uma gerontocracia que sobrevive vendendo charuto e nostalgia. Não tem petróleo, não tem rota comercial estratégica, não tem nada que justifique um soldado morto. Mas tem algo melhor que petróleo para certa gente: tem utilidade política. Serve de bicho papão eleitoral na Flórida, serve de pretexto para contratos do complexo industrial militar, serve de palco para presidente fraco mostrar músculo. A geografia do voto cubano em Miami compra mais ogivas do que qualquer relatório de inteligência.
Siga o dinheiro, sempre. Cada míssil que cair em Havana hipotética sai de uma fábrica em Lockheed, Raytheon, General Dynamics, empresas que financiam campanhas dos dois lados do corredor, democratas e republicanos, com a mesma generosidade ecumênica. O contribuinte americano paga o imposto, o imposto vira contrato, o contrato vira míssil, o míssil vira ação na bolsa, a ação na bolsa vira doação de campanha, e a doação de campanha vira voto contra o projeto Kaine. O ciclo é perfeito, redondo, bonito de admirar. Os mortos, esses, entram como rodapé estatístico no relatório anual.
Há ainda o detalhe filosófico que ninguém quer encarar. Conceder a um único homem, qualquer homem, o poder de iniciar uma guerra é o oposto exato do que se convencionou chamar república. É monarquia com mandato de quatro anos, é Cesarismo com sufrágio universal, é a tirania consentida pela maioria que se imagina livre porque vota a cada quatro anos no carcereiro de sua preferência. O Senado tinha, esta semana, a chance de recolher um pedaço da soberania que entregou de bandeja a sucessivos ocupantes da Casa Branca. Preferiu manter a entrega. É mais cômodo. Quem decide não responde, quem responde não decide, e quem morre não vota.
No fim, a votação de terça não é sobre Cuba. Cuba é o pretexto, sempre foi. A votação é sobre a renúncia voluntária ao freio constitucional, sobre a transformação definitiva da maior república do mundo em principado eletivo. Os senadores que votaram contra o projeto não defenderam Trump nem atacaram Kaine. Defenderam, isso sim, o privilégio futuro de não terem que defender voto algum quando o próximo presidente, seja ele quem for, mandar bombardear o próximo país da lista. Cobardia institucionalizada tem nome técnico, chama-se delegação. E a delegação, nesta terça, recebeu mais uma camada de verniz.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.