Repare na cena doméstica antes de qualquer filosofia: o sujeito que trava guerra mundial com o caixa do supermercado por causa de oitenta centavos no preço do feijão é o mesmo que cede, sem resistência alguma, quarenta minutos diários assistindo a um chefe medíocre explicar pela terceira vez aquilo que cabia num e-mail de duas linhas. Há uma assimetria moral nessa contabilidade que ninguém quer encarar de frente. O dinheiro a gente conta, anota, esconde debaixo do colchão, briga no inventário, processa o irmão. O tempo, esse a gente entrega de graça, com sorriso amarelo, para qualquer um que invoque a palavra mágica urgente.

E quem ganha com essa distribuição assimétrica? Sempre os mesmos suspeitos. O patrão que descobriu que reunião improdutiva sai mais barato do que aumento de salário. O burocrata que transformou fila de cartório em política de Estado, porque cada hora sua perdida na repartição é uma hora a mais de emprego garantido para a tia do despachante. O algoritmo da rede social que vende seus quinze minutos de scroll noturno por centavos de dólar para um anunciante de suplemento alimentar. Você é a matéria-prima, e nem cobra royalties. Os antigos romanos, que entendiam dessas coisas, escreveram que perdemos a vida sem perceber porque a vida não dói quando vai embora; ela apenas escorre, em silêncio, enquanto a gente discute o salário do jogador na padaria.

O truque ideológico é antigo e funciona porque ninguém quer ouvir. Convenceram o trabalhador moderno de que ele é livre porque pode escolher entre duas marcas de refrigerante, ignorando que ele dorme seis horas, trafega três no trânsito, vende oito para o empregador, paga imposto sobre tudo que sobra, e ainda agradece o feriado prolongado como se fosse caridade. A liberdade que importa, a única que vale a pena defender com unhas e dentes, é a soberania sobre o próprio relógio. Tudo o mais é decoração. E essa soberania foi parcelada, terceirizada, hipotecada para chefes, governos, igrejas, partidos, redes sociais e parentes mal resolvidos que aparecem no aniversário com conselhos não solicitados.

Há uma curiosa coragem que falta ao homem contemporâneo, e é justamente a coragem de dizer não. Não para a reunião inútil, não para o grupo de família no aplicativo verde, não para o pedido do colega que confunde gentileza com servidão, não para o programa de televisão que infantiliza o intelecto enquanto promete entretenimento. Cada não desses é um centavo recuperado no único cofre que importa. A propriedade privada começa, antes de qualquer escritura de imóvel, na propriedade sobre o próprio dia. Quem não defende as próprias horas não defenderá coisa alguma quando o coletor de impostos bater na porta com a desculpa do bem comum.

Os estoicos antigos, aqueles sujeitos que escreviam à luz de vela enquanto o império desabava ao redor, já tinham percebido a pegadinha. Eles diziam, em linguagem que hoje soa quase ofensiva de tão direta, que ninguém é pobre de tempo, todo mundo é apenas perdulário. O fazendeiro que vê o boi morrer berra de dor; o pai que vê o filho crescer sem olhar para ele encolhe os ombros e marca outra reunião de trabalho para sábado. Essa inversão é a essência da decadência moderna. Trocamos a herança imaterial pela carteira de plástico, e ainda ficamos orgulhosos do milhão de pontos no cartão de fidelidade.

A boa notícia, se é que existe alguma, é que esse confisco silencioso não exige revolução armada para ser revertido. Exige apenas o gesto austero de quem fecha a porta, desliga o aparelho, recusa o convite e senta diante de um livro velho enquanto o mundo grita lá fora pedindo atenção. O Estado pode confiscar sua renda, mas precisa da sua cumplicidade para confiscar seu domingo. Negar essa cumplicidade é o ato político mais radical que sobrou ao homem comum, e o mais barato também, porque não custa absolutamente nada. Só custa a coragem de admitir que a maior parte do que chamamos de obrigação é, na verdade, vaidade alheia paga com o nosso relógio.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.