Imagine cem mil homens enfiados num buraco no meio da Amazônia, subindo e descendo paredes de barro com sacos de sessenta quilos nas costas, formigas humanas escalando uma cratera que crescia mais rápido do que a fome que os trouxera até ali. Era 1980, sudeste do Pará, e o que se via em Serra Pelada não era apenas um garimpo, era a fotografia mais honesta do Brasil já produzida: gente disposta a morrer para enriquecer, e um governo igualmente disposto a fazer questão de que ela apenas morresse. A imagem dos corpos lamacentos virou ícone da miséria pitoresca para fotógrafo europeu vender em galeria de Paris. Faltou alguém perguntar a coisa óbvia: se tinha tanto ouro ali, por que ninguém daqueles homens saiu rico?
A resposta está, como sempre, na trilha do dinheiro. O garimpo foi descoberto por um peão em 1979 numa fazenda particular. Em poucos meses, o regime militar federalizou a área, expulsou a mineradora que tinha o direito de lavra e instalou um interventor com farda. A Caixa Econômica Federal montou posto fixo no buraco, monopólio absoluto da compra do ouro, preço tabelado abaixo do mercado internacional. Tradução para o português: o sujeito quebrava as costas cavando, entregava a pepita ao guichê do governo, recebia uma fração do valor real e ainda agradecia. O resto da diferença evaporava nos cofres da União, que justificava a roubalheira com a velha lengalenga do interesse nacional, da soberania mineral e de outras palavras grandes que servem para esconder operações pequenas.
O argumento oficial era que o Estado precisava intervir para evitar o caos, proteger o garimpeiro e garantir ordem. Curioso, porque o caos só apareceu depois que o Estado chegou. Antes da intervenção, havia uma mineradora com método, projeto e capacidade técnica para extrair o ouro de forma segura e produtiva. Depois da intervenção, surgiram os cem mil homens cavando com pá, a febre tifoide, a malária, os assassinatos diários, as prostitutas trazidas em barcaça e o famoso pedágio que cada barranco pagava aos capatazes do interventor. A ordem prometida produziu o maior antro de violência da Amazônia. A proteção ao garimpeiro consistiu em comprar dele o ouro pela metade do preço. Quando o poder promete proteger, conte os dedos antes de apertar a mão.
Há uma lógica antiga e implacável aqui, daquelas que qualquer camponês do século quatorze entenderia melhor que um economista de Brasília. Onde existe riqueza concentrada e desorganizada, aparece o senhor feudal oferecendo segurança em troca de tributo. Serra Pelada foi feudalismo tropical com farda do Exército no lugar de cota de malha. Os garimpeiros eram os servos da gleba, com a diferença de que o servo medieval pelo menos tinha direito a permanecer na terra. O brasileiro de Serra Pelada cavava, era extorquido, adoecia, e quando o ouro acabou foi despejado de volta para a estrada com as mãos vazias e os pulmões arruinados. Coronel virou deputado, interventor virou empresário, garimpeiro virou estatística de cemitério clandestino.
O detalhe mais ácido da história é que, até hoje, a narrativa oficial vende Serra Pelada como exemplo de ousadia popular, espírito empreendedor brasileiro, epopeia da gente humilde. Mentira deslavada. Não houve empreendedorismo nenhum onde havia monopsônio estatal de comprador. Não houve liberdade nenhuma onde havia interventor armado fixando preço. Houve trabalho escravo disfarçado, com a particularidade requintada de que o escravo achava que era patrão de si mesmo. Sessenta toneladas de ouro saíram daquele buraco entre 1980 e 1986. Pergunte a qualquer sobrevivente onde foi parar a parte dele. A resposta cabe num suspiro.
Toda vez que o governo aparece dizendo que vai organizar uma riqueza espontânea para o bem do povo, lembre da cratera. Lembre dos sacos de sessenta quilos. Lembre do guichê da Caixa pagando metade do preço. Lembre dos cem mil homens que entraram pobres e saíram mais pobres ainda, exceto pela cicatriz nas costas e pela ilusão duradoura de que tinham sido protagonistas de algo. O ouro de Serra Pelada existiu, e foi muito. Só não foi para quem cavou. Quem paga continua sendo o mesmo de sempre, e quem recebe também. A cratera fechou, o esquema não.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.