O IBGE anunciou com solenidade quase litúrgica que o setor de serviços cresceu 0,1% em fevereiro e atingiu o maior nível desde 2011, início da série histórica. O número, apresentado assim, pelado, parece uma boa notícia. E talvez fosse, se vivêssemos num país onde crescimento econômico significasse que pessoas livres estão produzindo mais riqueza por decisão própria. Mas não vivemos. Vivemos no Brasil, onde cada décimo de ponto percentual precisa ser dissecado com a desconfiança de quem abre uma mala abandonada no aeroporto.

O setor de serviços brasileiro é uma criatura peculiar. Nele cabem desde o barbeiro da esquina até a consultoria tributária que existe exclusivamente porque o código fiscal tem mais páginas que a Enciclopédia Britânica. Cabem os cartórios, essa jabuticaba nacional onde você paga para que um funcionário carimbe um papel dizendo que você é quem você já sabe que é. Cabem os escritórios de contabilidade que empregam milhões de pessoas cuja função primordial é decifrar o labirinto de obrigações acessórias que Brasília inventa a cada semestre. Quando o IBGE diz que serviços cresceram, a pergunta que ninguém faz é: serviços para quem? Serviços que geram riqueza genuína ou serviços que existem para cumprir exigências de um Estado que regula até a cor da parede do banheiro de restaurante?

Há um truque antigo, tão velho quanto a contabilidade criativa dos impérios em decadência, que consiste em confundir atividade econômica com prosperidade. Roma no século IV estava cheia de atividade: burocratas coletando impostos, soldados patrulhando fronteiras porosas, funcionários redistribuindo trigo subsidiado. O PIB romano, se alguém o medisse, estaria robusto. O império, como sabemos, não estava. Atividade não é sinônimo de saúde. Um hospital lotado é cheio de atividade, mas ninguém em sã consciência chamaria aquilo de boa notícia. O que importa não é se as pessoas estão ocupadas, mas se estão ocupadas produzindo algo que alguém voluntariamente escolheria comprar.

E aqui entra a trilha do dinheiro, que nunca decepciona. O governo federal, maior empregador do país, maior contratante de serviços, maior cliente de consultorias, maior tomador de crédito, injeta trilhões na economia por meio de gastos públicos financiados com dívida e inflação. Cada real que o Tesouro emite para cobrir o rombo fiscal vai parar em algum lugar, e frequentemente esse lugar é o setor de serviços. Serviços administrativos para o governo. Serviços jurídicos para contestar o governo. Serviços de tecnologia para digitalizar a burocracia do governo. É um ecossistema que se retroalimenta com uma elegância quase perversa: o Estado cria o problema, o setor privado vende a solução, o Estado tributa a solução, e o ciclo recomeça. O recorde do IBGE, lido por esse ângulo, é menos um atestado de vigor e mais um termômetro de dependência.

Nada disso significa que não haja crescimento real, legítimo, suado, de gente que abriu um negócio, atendeu um cliente e gerou valor. Existe, e é admirável justamente porque acontece apesar do ambiente, não graças a ele. O empreendedor brasileiro que consegue prosperar sob uma carga tributária de 34% do PIB, uma legislação trabalhista do tempo de Vargas e um sistema regulatório que exige licença até para vender limonada na calçada merece uma estátua, não um comunicado de imprensa do IBGE. Mas o governo, como sempre, aparece na foto do gol que não fez. Comemora o recorde como se fosse mérito da política econômica, quando na verdade é o resultado de milhões de brasileiros correndo na esteira cada vez mais rápido para ficar no mesmo lugar.

O número é 0,1%. Um décimo de ponto. Recorde histórico, dizem. Em qualquer país sério, 0,1% seria arredondado para zero e a manchete seria outra. Mas aqui, onde o governo precisa de boas notícias como um náufrago precisa de tábua, até a margem de erro estatística vira motivo de celebração. A pergunta, como sempre, permanece: se o setor de serviços está tão pujante, por que o brasileiro médio não sente no bolso? Porque entre o que a economia produz e o que chega ao cidadão existe um intermediário guloso, armado e com CNPJ de três letras. E esse intermediário, pode ter certeza, nunca bate recorde de encolhimento.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.