A Sinclair Broadcast Group apareceu na conferência TMT do Citi com o discurso de sempre, embrulhado em papel de presente novo. Falou de espectro, aquele bem etéreo que a companhia detém não porque conquistou no mercado, mas porque recebeu de mão beijada da Federal Communications Commission décadas atrás. Falou também de publicidade política, o filão que promete inundar 2026 e 2028 com bilhões em anúncios de campanha. É o retrato perfeito de um modelo de negócio que finge ser capitalista, mas que na verdade depende de duas muletas estatais para andar.
Vamos ao espectro primeiro, porque é ali que mora a mágica. Ondas eletromagnéticas foram declaradas propriedade pública em 1934 e distribuídas por licença a quem o regulador escolheu. Quem ganhou a licença virou dono de um ativo escasso por decreto, não por mérito. Agora, quando a Sinclair vai à Wall Street prometer monetizar esse espectro via ATSC 3.0, o novo padrão de transmissão, está oferecendo aos investidores o retorno de uma renda que só existe porque o Estado proibiu qualquer outro de entrar no mercado. Chamar isso de inovação é como chamar de empreendedor o sujeito que herdou o pedágio da rodovia.
Me diz uma coisa, se o espectro fosse leiloado de verdade, sem reserva de mercado para as incumbentes, quanto valeria hoje o balanço da Sinclair? A resposta incomoda porque expõe o truque. O valor de mercado dessas empresas de broadcast é, em boa parte, o valor presente descontado da barreira regulatória que impede concorrência. Você não está comprando ação de mídia, está comprando uma fatia da renda perpétua que o cartel legal produz. E quando o executivo sobe ao palco e fala em sinergia, na verdade está dizendo que o congresso continua leal aos padrinhos de sempre.
Agora, a segunda perna do banquinho, a publicidade política. A Sinclair estima que cada ciclo eleitoral americano derrama entre dez e quinze bilhões de dólares em anúncios televisivos, e ela abocanha uma fatia gorda porque suas emissoras locais dominam mercados suíços onde a disputa é decidida. Ótimo para o acionista, péssimo para quem paga a conta. Esse dinheiro sai de doadores, de PACs, de milionários e sindicatos, tudo canalizado para a fábrica de spots de trinta segundos que, ironicamente, faz do processo democrático um leilão. Quanto mais complicado o sistema eleitoral, mais caro o anúncio, mais rica a emissora, mais dependente o candidato do doador. O ciclo se retroalimenta como uma serpente engolindo a própria cauda.
O que se vê é a Sinclair prometendo receita, dividendo, recompra de ações. O que não se vê é o custo institucional de um modelo em que a mídia local vive do dinheiro da política, e a política vive do acesso à mídia local. Nenhum dos dois teria a robustez atual num mercado genuinamente livre, com espectro desregulamentado, entrada aberta e streaming competindo em pé de igualdade sem a proteção artificial das regras de must-carry e de retransmissão obrigatória. A conferência do Citi é o baile de máscaras onde o rentismo se veste de tecnologia e o lobby se disfarça de estratégia.
Enquanto os analistas do banco aplaudem os múltiplos e projetam EBITDA, o cidadão comum paga três vezes. Paga como consumidor que financia produtos anunciados nos intervalos, paga como eleitor bombardeado por propaganda paga com dinheiro que compra favores, e paga como contribuinte que sustenta a burocracia regulatória que mantém o esquema girando. Capitalismo genuíno recompensa quem serve o cliente. Isto aqui é outra coisa, mais velha e menos nobre, o velho arranjo entre trono e mercadoria dressed up com terno da Brooks Brothers.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.