O vírus sincicial respiratório não nasceu ontem. Ele circula há décadas, sazonal como chuva de verão, e sempre fez estrago nos pulmões de bebês pequenos. O que mudou não foi o vírus, foi o roteiro. Agora, toda vez que a curva epidemiológica sobe meio palmo, sai o mesmo comunicado oficial, com a mesma solenidade de boletim de guerra, apontando para o mesmo remédio milagroso que, por coincidência divina, está disponível em doses industriais nos depósitos de sempre. Quem lê jornal há tempo suficiente percebe o truque: o problema é real, a urgência é fabricada, e a solução já vinha pronta antes mesmo do susto.

Convém fazer a pergunta que ninguém faz em coletiva de imprensa. Quem paga pela campanha? O contribuinte, evidentemente, através do orçamento do Ministério da Saúde, dos convênios com fundações de pesquisa, das verbas de publicidade pulverizadas em agências amigas. E quem recebe? A lista é curta e conhecida: o laboratório detentor da patente, os distribuidores credenciados, as fundações que vivem de estudo encomendado, os gestores que justificam cargo empilhando portaria em cima de portaria. O bebê com bronquiolite é o pretexto, não o beneficiário final da engrenagem. O beneficiário final assina nota fiscal.

A lógica, quando destrinchada, é de uma simplicidade constrangedora. Se a premissa é que o sistema de saúde pública funciona, então os hospitais deveriam ter leitos pediátricos, oxigênio, fisioterapeutas respiratórios e pediatras de plantão em número suficiente para absorver a sazonalidade. Como isso notoriamente não acontece, o governo descobre, a cada inverno, que a única saída é empurrar mais um imunizante na gestante, terceirizando para o útero materno aquilo que o hospital não consegue entregar no pronto-socorro. A conclusão se impõe sozinha: não é prevenção, é desvio de responsabilidade maquiado de ciência.

E a gestante, coitada, vira cliente cativa de um mercado que se apresenta como caridade. Ela não escolhe, ela é orientada. Orientação na boca de autoridade sanitária tem peso de ordem, e ordem em república tropical vem acompanhada de cartaz em posto de saúde, campanha em horário nobre e, quando dá, cláusula em benefício social. Já vimos esse filme antes, com outros nomes, outras cepas, outros fornecedores. O figurino muda, o enredo é sempre o mesmo: cria se a demanda, monta se o pânico, libera se a verba, distribui se o produto, e no final todo mundo aplaude a eficiência do Estado em salvar vidas que ele próprio colocou em risco ao sucatear a atenção básica.

Há algo de profundamente obsceno em transformar o choro de um bebê em planilha de compra centralizada. O cuidado com a criança pequena é o terreno mais íntimo da vida familiar, aquele em que pai e mãe decidem, com o pediatra de confiança, o que fazer e quando fazer. Substituir essa conversa por um protocolo nacional, carimbado por fundação pública com orçamento bilionário e parcerias privadas não auditadas, é dissolver a autoridade doméstica em favor do balcão estatal. O remédio pode até funcionar em alguns casos, e provavelmente funciona, mas o método de impô lo como dogma nacional é que merece suspeita. Ciência de verdade aceita ser questionada. Propaganda de governo, não.

Enquanto isso, os leitos de UTI pediátrica seguem insuficientes, os pediatras continuam mal pagos, os postos de bairro funcionam em meio expediente e a mãe que mora longe do centro espera três horas para ser atendida com o bebê chiando no colo. Nenhum comunicado oficial menciona esse pedaço da história, porque esse pedaço não gera licitação, não gera contrato, não gera manchete heroica. Gera só o silêncio constrangido de quem sabe que a saúde pública brasileira não é um sistema de cuidado, é um sistema de compras. E todo sistema de compras, mais cedo ou mais tarde, encontra o vírus perfeito para justificar o próximo pedido.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.