Chega o inverno e, pontualmente, brotam as matérias sobre rachaduras nos calcanhares, como se fosse novidade que ar seco resseca pele exposta. É o mesmo ritual anual da gripe, do aumento da conta de luz e do anúncio governamental de que desta vez, juro, a inflação vai ceder. O fato concreto é trivial e antigo como a humanidade calçada: a camada córnea da sola, espessa por natureza para aguentar o peso do corpo, perde elasticidade quando a umidade do ar cai, e o que era resistência vira fissura. Sangra, dói, infecciona. E a imprensa redescobre o óbvio todo mês de junho com cara de revelação científica.

O problema, claro, não é o frio. O frio é apenas o gatilho que expõe meses de descuido. Quem trata os pés o ano inteiro, hidrata, esfolia com pedra-pomes, usa meia de algodão e bebe água como gente civilizada, atravessa o inverno sem drama. Quem ignora o próprio corpo durante o calor, anda de chinelo no asfalto fervendo, passa o dia em pé sem nunca olhar para baixo, recebe em julho a fatura acumulada de doze meses de negligência. A pele opera pela mesma lógica implacável de qualquer estrutura submetida a estresse: cede no ponto mais fraco, na hora mais inconveniente, com o custo mais alto. Romanos sabiam disso quando construíam estradas; engenheiros sabem quando calculam pontes; só o cidadão moderno acha que o próprio corpo é exceção.

Há ainda a parte cômica, que é a indústria parasitária que floresce em torno desse pânico sazonal. Cremes milagrosos a preços de joia, sessões de podologia que custam o equivalente a um botijão de gás, esfoliantes elétricos importados, tratamentos a laser para problema que se resolve com vaselina de farmácia e cinco minutos por dia. O capitalismo de varejo entendeu há muito tempo que vender solução cara para problema barato é o negócio mais lucrativo do planeta, perdendo apenas para vender problema imaginário com solução cara. E o consumidor, treinado para terceirizar tudo, desde a comida até o pensamento, paga sorrindo, convencido de que a salvação está embalada em frasco de design escandinavo.

O sintoma, na verdade, é cultural antes de ser dermatológico. Vivemos numa civilização que perdeu a noção de manutenção. Não se conserta sapato, troca-se. Não se cuida do dente, espera-se a cárie e o canal. Não se hidrata a pele, espera-se a rachadura e a pomada antibiótica. É a mesma mentalidade que faz o governo só lembrar da infraestrutura quando a ponte cai, e o cidadão só lembrar da poupança quando o emprego acaba. A prevenção exige disciplina diária, virtude impopular numa época que confunde liberdade com impulso e autocuidado com consumo. Resultado: calcanhares sangrando em julho, e a mesma cara de espanto todo ano.

Quem paga essa conta? O próprio sujeito, em consultas, em pomadas, em antibióticos para infecção que não precisava existir, em dias de trabalho perdidos por uma fissura que escalou para celulite bacteriana. Quem recebe? A cadeia inteira de fornecedores de remédio para sintoma, terapia para sequela, intervenção para emergência. O modelo é o mesmo da saúde pública, da economia, da política: deixe o problema crescer, e construa uma indústria inteira para administrar o estrago. A solução verdadeira, água, óleo, lixa e atenção, é gratuita e por isso ninguém anuncia. Não dá comissão, não rende manchete, não move PIB. Apenas funciona, o que no mundo contemporâneo é praticamente um defeito.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.