O número é grosseiro demais para ser maquiado por assessoria de imprensa: os sequestros quase triplicaram na Colômbia desde que Gustavo Petro assumiu a Casa de Nariño com o discurso da paz total. Hoje, domingo, 31, os colombianos vão às urnas com a crise humanitária mais grave da última década pendurada no pescoço, e o tema central da eleição não é educação, não é emprego, não é meio ambiente, é a banalíssima questão de saber se o cidadão volta vivo para casa depois de sair para comprar pão. Eis o legado palpável do humanismo armado de slogans: estatística de cativeiro multiplicada por três e um país inteiro descobrindo, na pele, que pacifismo de gabinete custa caro quando quem está do outro lado tem fuzil.
A engenharia do desastre é quase didática. O governo decretou trégua, suspendeu ofensivas, abriu mesa de diálogo com guerrilheiros, dissidentes, narcotraficantes e qualquer um que se apresentasse com fuzil e CNPJ revolucionário. Em troca da boa vontade unilateral do Estado, os grupos armados receberam exatamente aquilo que sempre quiseram: tempo, território e oxigênio. Enquanto o presidente discursava sobre fraternidade nos fóruns internacionais, o ELN, as dissidências das FARC e o Clã do Golfo redesenhavam o mapa do país a bala, expandindo rotas, recrutando crianças e descobrindo que o sequestro voltou a ser linha de receita rentável. Quem paga? O comerciante, o fazendeiro, o caminhoneiro, a família de classe média que precisa juntar resgate em dólar. Quem recebe? O mesmo de sempre, agora com licença poética concedida pelo Palácio.
Há uma lógica brutal que nenhum manifesto consegue contornar. Se a função primeira de um governo é o monopólio legítimo da força para proteger vidas e propriedades, e se esse governo abdica voluntariamente de exercer essa função em nome de uma abstração emocional, então o monopólio simplesmente migra. Não desaparece, migra. Passa das mãos do Estado para as mãos de quem está disposto a usá-lo, e na Colômbia, garanto, sobra gente disposta. O resultado dessa cadeia de premissas é o que se vê nos boletins de ocorrência: vácuo de autoridade preenchido por autoridade paralela, com pedágio cobrado em parente vivo. Chamar isso de paz é o mesmo que chamar de jejum a fome alheia.
O detalhe deliciosamente sinistro é que o projeto da paz total nunca foi exatamente sobre paz. Foi sobre legitimar interlocutores, transferir recursos, criar comissões, distribuir cargos em programas de reintegração e, sobretudo, blindar politicamente quem sempre operou nas franjas do poder bolivariano continental. Cada mesa de negociação virou orçamento, cada orçamento virou cabide, cada cabide virou eleitorado cativo. A retórica da reconciliação tem essa vantagem contábil que os críticos costumam ignorar: ela move dinheiro público para destinos politicamente convenientes sob aplauso da imprensa internacional. Que o cidadão comum vire estatística de cativeiro no meio do caminho é, digamos, um custo aceitável da utopia.
A imprensa global, claro, demorou a notar o detalhe. Estava ocupada celebrando o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, o ex-guerrilheiro redimido pela urna, a promessa latino-americana de superação do conflito. Enquanto isso, o país de verdade, aquele que mora fora das colunas de opinião do El País, ia aprendendo na marra que sequestrador não lê tratado e que terrorista rebatizado de ator político continua cobrando resgate na moeda forte. A guerra cultural sempre antecede a guerra de fato, e quem perde a primeira tende a entregar a segunda de bandeja, embrulhada com fitinha de empatia.
Resta a urna, esse instrumento imperfeito que ainda oferece aos colombianos a chance de devolver o bilhete da fantasia. Se votarão pela continuidade do experimento ou pela restauração do mínimo civilizatório, saberemos nas próximas horas. O que já se sabe, e isso nenhuma boca de urna desmente, é que toda vez que um governo trata bandido como interlocutor e cidadão de bem como obstáculo, o preço chega rápido e em parcelas dolorosas. A pergunta nunca muda, apenas a resposta envelhece pior: quem paga essa conta de paz fictícia, e quem fatura no balcão dos lados.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.