A frase circula há décadas em camisetas, palestras motivacionais, posts de coach de LinkedIn e discursos de político em ano eleitoral, sempre com o mesmo crédito solene ao filósofo grego que tomou cicuta em praça pública. Pequeno detalhe: ele nunca escreveu nada. Absolutamente nada. Tudo o que se sabe do ateniense chegou pela pena de discípulos, e em nenhum dos diálogos preservados existe sombra dessa sentença. A frase é, na verdade, do autor de um best seller dos anos 1990 sobre transformação pessoal, um americano vivíssimo, que viu sua linha sequestrada por uma toga emprestada. O mecanismo é velho como o mundo: pendure uma autoridade morta numa banalidade contemporânea e ela vira sabedoria milenar.

Mas deixemos a fraude bibliográfica de lado, porque ela é o aperitivo. O prato principal é o conteúdo da frase, e aqui mora um incômodo que explica por que ninguém no poder gosta dela, mesmo quando finge gostar. O conselho é simples e devastador: pare de gastar combustível tentando derrubar a estrutura existente e gaste esse mesmo combustível erguendo a alternativa. Quem segue isso à risca deixa de ser militante e vira construtor. E construtor, ao contrário do militante, não precisa do inimigo para existir. É exatamente o tipo de gente que tira o sono de quem vive da queixa permanente.

Pense na lógica fria do arranjo. Toda burocracia, todo partido, toda ONG subsidiada, todo movimento financiado por edital depende existencialmente do problema que diz combater. Se a pobreza acabasse amanhã, ministério inteiro fecharia as portas. Se a violência urbana cessasse, secretarias inteiras perderiam orçamento. Se o racismo evaporasse, fundações inteiras ficariam sem propósito. Por isso a estratégia oficial nunca é construir o novo, é eternizar o combate ao velho. O combate gera folha de pagamento, gera cargo comissionado, gera passagem aérea, gera diária de hotel cinco estrelas em conferência internacional. A solução, pelo contrário, demitiria todo mundo.

O empreendedor que abre uma escola particular barata para o filho do pedreiro estudar inglês resolve, na sua quadra, aquilo que três décadas de plano nacional de educação não resolveram. O sujeito que monta uma cooperativa de crédito numa cidade do interior tira mais gente do agiota do que qualquer programa federal de microcrédito. A mãe que organiza um grupo de leitura na garagem forma mais leitores do que toda a indústria do livro didático bilionário comprado por licitação. Estes são os que constroem o novo. E não aparecem em manchete porque manchete é feita para quem grita contra o velho, não para quem trabalha em silêncio fazendo algo melhor surgir.

Há ainda a dimensão moral da coisa, a mais negligenciada. Quem passa a vida combatendo se torna, com o tempo, uma cópia espelhada daquilo que combate. Olha-se no espelho do inimigo até ficar parecido com ele. O revolucionário envelhecido vira o burocrata que jurou destruir. O fiscal de costumes acaba devorado pelos vícios que perseguia. A energia da indignação, quando não é canalizada para criação, apodrece em ressentimento, e ressentimento é matéria-prima de tirano. Construir, ao contrário, exige paciência, exige aprender ofício, exige errar e refazer, exige a humildade de servir alguém antes de exigir aplauso. É uma escola de caráter que o ativismo profissional jamais oferece.

Por isso a frase apócrifa, ainda que vestida com toga falsa, carrega mais verdade que noventa por cento do que se publica em jornal sério. O segredo nunca esteve em derrubar palácios, esteve em tornar palácios irrelevantes. Quem ergue um mercado livre torna o ministério da economia decorativo. Quem educa um filho em casa torna a secretaria de educação supérflua. Quem produz energia no próprio telhado torna a estatal um fóssil. A revolução verdadeira não desfila com bandeira, ela abre as portas no horário marcado, paga os fornecedores em dia e atende o cliente sem pedir licença para o burocrata. Pergunta antiga, resposta de sempre: quem paga é o construtor, quem recebe é todo mundo que cruza com a obra dele. O resto é fumaça.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.