O governo de São Paulo, num daqueles rompantes de criatividade que só acometem quem nunca pagou pedágio do próprio bolso, lançou o Plano de Segurança Viária, peça publicitária que promete reduzir mortes no trânsito mediante uma engenhosa subdivisão em fases vinculadas ao Plano Plurianual. Notem a estrutura do truque: o problema é hoje, o sangue está hoje no asfalto, mas a solução vem fatiada em quadriênios orçamentários, como se a morte tivesse a paciência burocrática de esperar a próxima dotação. É a velha alquimia republicana, transformar urgência em cronograma e cronograma em justificativa para mais imposto.

Convém perguntar a coisa óbvia que ninguém na coletiva teve a coragem de formular: se o Estado já cobra IPVA, CIDE sobre combustíveis, ICMS sobre gasolina, taxa de licenciamento, multas de trânsito, pedágios concedidos a peso de ouro e ainda o DPVAT redivivo em novas fantasias, onde exatamente está o dinheiro que deveria, há décadas, manter sinalização decente, asfalto sem cratera e fiscalização que não dependa de novo programa? A resposta é constrangedora porque é simples. O dinheiro foi para outro lugar, e agora pedem mais para fazer aquilo que já estavam obrigados a fazer. É como o garçom que cobra o couvert, esquece de trazer o pão e depois propõe um plano plurianual de panificação.

O silogismo aqui é cruel na sua nudez. Premissa primeira, o Estado arrecada bilhões especificamente vinculados ao trânsito e às vias. Premissa segunda, o trânsito permanece letal apesar da arrecadação histórica. Conclusão inevitável, o problema nunca foi falta de recurso, foi destino do recurso. Qualquer plano novo que não comece auditando para onde foi o dinheiro velho é, por construção lógica, fraude orçamentária travestida de política pública. E quando o anúncio vem acompanhado da expressão mágica fases relacionadas ao PPA, sabe-se que a entrega é tão remota quanto a segunda vinda, com a diferença de que ninguém promete ressuscitar o pedestre atropelado em 2026 quando a fase três finalmente sair do papel em 2031.

Há também o lado que a imprensa oficiosa nunca cheira: quem ganha contrato. Plano de segurança viária se traduz, na prática contábil, em consultorias de engenharia de tráfego, fornecedores de radar, empresas de sinalização horizontal e vertical, integradoras de software de monitoramento, ONGs especializadas em campanhas educativas e a inevitável agência de publicidade que vai produzir o vídeo emocionante com criança de mãos dadas. Cada fase do PPA é uma temporada nova da mesma novela, com elenco rotativo de empreiteiros e roteiro fixo de licitação dirigida. O morto no acostamento é apenas o pretexto narrativo, o protagonista verdadeiro é o empenho.

O cidadão paulista, esse personagem trágico que financia tudo isso enquanto desvia de buraco com o carro que já pagou três vezes em tributo, é convidado mais uma vez a aplaudir o gesto humanitário do governante. Não percebe que está diante do mesmo truque romano do pão e circo, atualizado para a era do PowerPoint. O império distribuía trigo e gladiadores, a república distribui plano e fase. A função é idêntica, anestesiar a percepção de que aquele dinheiro saiu do bolso de quem trabalha e foi para o bolso de quem governa, com uma gorjeta retórica devolvida sob a forma de promessa cronogramada.

Se quisessem reduzir mortes no trânsito, fariam o que custa pouco e funciona em qualquer lugar civilizado: aplicariam a lei existente, puniriam servidor que desviou verba de manutenção, abririam concorrência real para sinalização sem cartel e devolveriam o excedente ao contribuinte para que ele mesmo trocasse o pneu careca. Mas isso não rende coletiva, não gera fase, não enche planilha de PPA e, sobretudo, não cria emprego para apadrinhado. Por isso o plano novo, com nome bonito e prazo elástico, será celebrado como avanço. E os mortos, esses, continuarão sendo apenas estatística de rodapé na próxima reedição do mesmo anúncio, daqui a quatro anos, com outro secretário sorrindo na foto.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.