Juliana Faustino Bassetto tinha 27 anos quando entrou numa piscina da zona leste de São Paulo para dar aula de natação. Não saiu viva. O que deveria ser, num país sério, o ponto de partida de uma investigação fria e cirúrgica, virou na prática um espetáculo de gestos vazios: a unidade foi fechada inteira, como se o vestiário, a sala de musculação e os halteres tivessem conspirado contra a moça, e agora a Justiça, num arroubo de bom senso tardio, autoriza a reabertura de tudo exceto a piscina. Traduzindo do juridiquês para o português dos mortais: ninguém sabe direito o que aconteceu, mas precisava parecer que alguém estava fazendo alguma coisa.
Repare na coreografia. Primeiro o choque, depois a fúria popular, em seguida a autoridade pública corre na frente das câmeras para mostrar musculatura, fecha o estabelecimento por inteiro, transforma o empresário em vilão antes mesmo do laudo, e só depois, quando o barulho diminui e o advogado entra com a petição, é que o juiz lembra que existe propriedade privada, contrato de trabalho de dezenas de outros funcionários, mensalidade paga por centenas de alunos, e que a esteira ergométrica é juridicamente inocente da morte ocorrida na piscina. Fecha-se a padaria inteira porque um pão saiu queimado, e depois se reabre tudo menos o forno. Genial.
A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é a única que importa: quem paga essa conta? Paga o empresário da academia, que ficou dias sem faturar enquanto a folha continuava correndo. Pagam os funcionários, que viram o salário ameaçado por uma tragédia em que não tiveram parte alguma. Pagam os alunos, que perderam o serviço pelo qual já haviam adiantado dinheiro. E quem recebe? Recebe o burocrata em forma de aparência, em forma de manchete favorável, em forma daquela sensação confortável de que o Estado está velando pela sociedade. O luto da moça serve de combustível para a engrenagem, e a engrenagem cobra pedágio de todos os que estavam por perto, culpados ou inocentes.
Há uma confusão deliberada, que se repete em todo escândalo brasileiro, entre apurar responsabilidades e exibir poder. São coisas distintas. Apurar exige perícia, exige tempo, exige separar o que foi negligência específica do que foi fatalidade, exige distinguir o ato de um indivíduo do funcionamento de uma instituição. Exibir poder, ao contrário, exige cadeado na porta e foto no jornal. O primeiro caminho serve à viúva, aos pais, à verdade. O segundo serve ao agente público que precisa renovar mandato, à autoridade sanitária que quer justificar orçamento, ao promotor que sonha com carreira. Adivinhe qual costuma prevalecer.
O detalhe mais cínico é que, no fim, a piscina continua interditada, e isso até pode estar correto enquanto se apura o que houve com a água, com o socorro, com o protocolo de segurança aquática. Mas note a inversão: o razoável, que era manter fechado apenas o local do acidente, só foi alcançado depois que se cometeu o desproporcional, que foi fechar a empresa inteira. O cidadão paga sempre duas vezes: paga pelo erro original e paga pela reação histérica ao erro. Como nas antigas pragas medievais, em que se queimava a casa do doente, depois a rua do doente, depois o bairro do doente, e ao fim alguém descobria que o problema eram os ratos, e os ratos seguiam vivos, gordos e burocratizados.
Resta a memória de Juliana, que merece investigação séria e não encenação. Resta a pergunta de sempre, aquela que não sai da boca de quem está no poder porque é exatamente a que os desmascara: quem pagou esta conta e quem ficou com o troco? Enquanto a resposta for o particular pagando e a autoridade recebendo aplausos, o teatro continua em cartaz, com elenco rotativo e plateia obediente. A piscina está fechada. O resto, infelizmente, segue funcionando como sempre funcionou.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.