A Spirit Airlines, aquela que cobrava por bagagem, por escolher assento, por respirar dentro do avião, acaba de cancelar todos os voos nos Estados Unidos e encerrar atividades. É a segunda falência em pouco mais de um ano, façanha que no setor privado decente se chama incompetência e na política americana atual se chama oportunidade. Porque enquanto o caixão era pregado, a Casa Branca abria a carteira: cerca de quinhentos milhões de dólares de socorro federal para tentar manter de pé um cadáver que o mercado já tinha velado duas vezes. O cliente disse não. O acionista disse não. O credor disse não. Sobrou o contribuinte, que como sempre não foi consultado.
Pergunta elementar, daquelas que professor de lógica antiga gostava de fazer no primeiro dia de aula. Se uma empresa quebra porque ninguém quer comprar o que ela vende pelo preço que ela cobra, qual é o sinal econômico que o mercado está mandando? Resposta óbvia: liquidem, vendam os ativos, deixem que outras companhias melhores absorvam as rotas e os funcionários competentes. É assim que o capitalismo funciona quando deixam ele funcionar. Falência é a maneira civilizada de o sistema dizer que aquele arranjo de capital, mão de obra e estratégia produzia menos valor do que destruía. Salvar o falido é como insistir em remendar um barco que já afundou três vezes, com madeira nova roubada da casa do vizinho.
E aqui entra o ponto que ninguém na imprensa de aeroporto quer tocar, porque dá trabalho seguir o rastro do dinheiro até o fim. Quem ganha com o resgate? Os credores, primeiro, que de outro modo levariam o calote merecido por terem emprestado mal. Os executivos, segundo, que continuam recebendo bônus por administrar prejuízo. Os fundos que apostaram errado e agora terceirizam a aposta para o pagador de imposto de Iowa, do Texas, do Tennessee. Os sindicatos politicamente ativos em estados-chave, claro, porque emprego em ano eleitoral vale mais do que livro-caixa. E quem perde? O sujeito que nunca pisou num avião amarelo da Spirit, que paga sua passagem em outra companhia, que recolhe seus tributos, e que agora descobre que parte do salário dele virou subsídio cruzado para uma empresa que ele recusou como consumidor. Recusou como cliente, foi obrigado como pagador. Belo sequestro com terno e gravata.
O argumento padrão é sempre o mesmo, e cabe num cartaz de feira. "Empregos em risco". "Conectividade aérea". "Setor estratégico". Os impérios que ruíram entupidos de papel-moeda usavam exatamente esse vocabulário, trocando legionário por trabalhador e pão grátis por passagem barata. O nome muda, a mecânica não. Toda vez que o governo decide que uma empresa é grande demais, importante demais, simbólica demais para falir, o que ele está dizendo na verdade é que os amigos dele são caros demais para perder dinheiro. O resto, o discurso sobre o emprego do mecânico de Fort Lauderdale, é fumaça retórica para encobrir a transferência. Privatizam o lucro quando dá certo, socializam o prejuízo quando dá errado, e ainda querem que o cidadão aplauda em pé.
Há ainda a piada de fundo, aquela que só percebe quem olha o setor inteiro. A aviação americana é uma das indústrias mais reguladas, mais protegidas e mais subsidiadas do planeta capitalista, atrás talvez apenas do agronegócio europeu e dos bancos centrais em geral. Slots de aeroporto distribuídos politicamente, rotas garantidas por programa federal, isenções fiscais costuradas no escuro, resgates em série desde os anos setenta. Depois aparecem os economistas de televisão dizendo que o mercado falhou. Não falhou nada. O que falhou foi a tentativa de simular um mercado dentro de um cassino onde a casa muda as regras a cada mão e cobra a entrada de quem está do lado de fora assistindo. A Spirit não quebrou apesar do sistema, quebrou conforme o sistema, que produz exatamente esse tipo de empresa zumbi viciada em adrenalina regulatória.
Resta a pergunta de sempre, a única que importa, a que abre e fecha qualquer análise honesta de política econômica. Quem paga e quem recebe? Paga o trabalhador que nunca voou de Spirit. Paga o aposentado de Ohio que pega ônibus. Paga a família que estica o orçamento no fim do mês. Recebe o credor sofisticado de Manhattan, o executivo com paraquedas dourado, o lobista que mora na Beltway, o político que troca cheque por voto. É a economia do confisco vestida de compaixão, é o roubo institucionalizado com selo de urgência nacional. Da próxima vez que alguém disser que o livre mercado fracassou, lembre-se: o mercado é livre só na hora de cobrar a passagem. Na hora de pagar a falência, ele é federal.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.