Trinta e três milhões de dólares na sexta de estreia. Para qualquer produção independente, seria festa com champanhe estourando até o teto. Para um lançamento Disney embalado na marca mais lucrativa da história do cinema, com um feriado prolongado de Memorial Day servido em bandeja de prata, é atestado de óbito assinado em cartório. O número, friamente, ficou abaixo do que rendeu Han Solo em 2018, fracasso retumbante que até hoje serve de piada interna em Hollywood. Em outras palavras, o estúdio gastou sete anos, demitiu executivos, recontratou outros, e voltou ao ponto exato em que ninguém queria estar.

O interessante é seguir o cheiro do dinheiro. A Disney comprou a Lucasfilm em 2012 por mais de quatro bilhões de dólares e prometeu aos acionistas que transformaria cada conto de fadas galáctico em ouro. Funcionou nos primeiros anos, quando o público ainda confundia nostalgia com qualidade. Depois veio a série de tropeços, a trilogia que terminou no improviso, os spin-offs que ninguém pediu, as séries de streaming que sangraram orçamentos de blockbuster para audiências de canal a cabo. Cada bilhão queimado, cada estrela contratada por cachê de soberano, cada roteirista que entregou panfleto em vez de história, tudo isso sai do bolso de quem? Do executivo que decidiu? Não. Do acionista pulverizado, do assinante do Disney+, do espectador que paga vinte dólares no cinema esperando ver uma aventura e recebe sermão.

A regra é antiga e nunca falha. Quando uma marca para de servir o cliente e passa a servir o departamento de recursos humanos, a conta chega. A história está cheia de impérios comerciais que esqueceram para quem trabalhavam e foram parar nos arquivos. O sapateiro que decide ensinar moral ao freguês em vez de fazer sapato confortável vê o cliente atravessar a rua. O estúdio que decide doutrinar em vez de divertir descobre que o feitiço da nostalgia tem prazo de validade, e ele expira no exato momento em que o público sente que está sendo enganado. Não há contrato eterno entre franquia e fã. Há, sempre houve, uma transação voluntária, repetida ou rompida a cada bilhete vendido.

Os defensores do estúdio dirão que cento e dois milhões no fim de semana ampliado é número respeitável. É a velha tática de mover a meta depois que a flecha foi disparada. Quando o projeto foi aprovado em sala de reunião com paredes de vidro, ninguém estava sonhando com estreia comparável a um fracasso de 2018. Sonhavam com duzentos, trezentos milhões, números de Vingadores em sua época áurea. O resultado real conta uma história diferente, e a história é simples. Quando o produto encolhe enquanto o orçamento de marketing explode, alguém está mentindo no relatório trimestral, e o mercado, esse juiz cruel e implacável, está começando a sacar.

Há ainda uma lição que os engravatados de Burbank fingem não ver. Toda escolha tem custo. Cada dólar gasto reformulando personagens para agradar um conselho consultivo de identidade é um dólar não gasto em roteiro decente, em ritmo, em surpresa, naquilo que faz o sujeito sair do sofá num sábado à noite. O público, que ninguém respeita mas todos precisam, não vota em assembleia. Vota no caixa. E o voto silencioso, distribuído em milhões de bilheterias ao redor do mundo, é o único instrumento honesto de avaliação que sobrou neste circo. Nenhum crítico bajulador, nenhum site amigo, nenhuma campanha paga consegue inflar uma fileira vazia.

No fim, a pergunta volta ao começo. Quem paga e quem recebe? Paga o assinante que sustenta o catálogo de streaming, paga o acionista que vê o múltiplo encolher, paga o funcionário que será dispensado na próxima reestruturação anunciada com sorriso plástico em conferência. Recebem os mesmos de sempre, os executivos com cláusula de saída blindada, os consultores que cobram caro para repetir o óbvio, os ativistas que conseguiram capturar uma marca centenária e usá-la como megafone até a marca rachar. O boneco verde virou símbolo de uma engrenagem que entrou em parafuso, e o público, esse animal racional que ninguém consegue domar de vez, finalmente está cansado de fingir que gostou.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.