Cento e quarenta milhões de reais. É a cifra que, segundo a investigação, teria passado pelas mãos de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, e de seu operador Daniel Monteiro, num arranjo de propinas que agora chega à 2ª Turma do Supremo no próximo dia 22. Repita o número devagar, porque ele tem gosto: cento e quarenta milhões. Não saíram do bolso de filantropos, não brotaram em horta orgânica, não vieram de investidores anjos. Saíram, como sempre saem, do contribuinte do Distrito Federal, aquele mesmo sujeito que paga IPVA em dia, financia a Câmara Legislativa, sustenta a máquina e depois descobre que o banco público que deveria servi-lo foi convertido em balcão particular de intermediação de contratos.
Ninguém deveria se espantar. Banco estatal é, por definição ontológica, uma armadilha montada para capturar poupança alheia sob o pretexto de fomento, desenvolvimento, inclusão e outros substantivos bonitos que o marqueteiro oficial empilha em cartaz colorido. A palavra correta é captura. O dinheiro entra compulsoriamente via tributo, depósito de servidor, folha do governo local, e sai discricionariamente via crédito direcionado, patrocínio, operação estruturada, consultoria amiga. No meio do caminho, entre o contribuinte que pagou e o beneficiário que recebeu, aparece sempre a figura indispensável do intermediário, o cara que conhece o cara, o despachante de alto coturno que cobra pedágio para abrir a porteira. Cento e quarenta milhões é só o preço de tabela desse pedágio quando a porteira é grande.
A mecânica é tão velha que dava para cobrar direito autoral. Na Roma tardia, os publicanos arrematavam o direito de cobrar tributo e ficavam com o excedente; trocou-se a toga pelo terno de banqueiro público, mas o ofício continua o mesmo. O sujeito nomeado politicamente para presidir a instituição não vai para lá por competência atuarial, vai porque representa um feudo, um acordo, uma fatia da coalizão. Seu trabalho não é maximizar retorno do acionista, porque o acionista é uma ficção chamada povo, que não comparece à assembleia nem lê balanço. Seu trabalho real é administrar o fluxo de favores, e todo fluxo de favores tem tarifa. Quem finge acreditar que é diferente ou é ingênuo ou está na folha.
Siga o rastro e repare na simetria perversa. De um lado, o correntista do BRB, o servidor público de Brasília, o pequeno empresário do DF que tomou empréstimo e pagou juros salgados. Do outro lado, os supostos beneficiários dos R$ 140 milhões, que a denúncia aponta como clientes VIP de um serviço muito específico: o de transformar capital alheio em contrato certo. A conta que não fecha no balcão do cidadão comum fecha perfeitamente no backoffice do poder. É a lei da conservação da grana sujo: ela não desaparece, apenas muda de dono, e o novo dono raramente é quem trabalhou para criá-la.
Agora vem o figurino do espetáculo. A 2ª Turma decide se mantém ou derruba a prisão preventiva, e a imprensa palaciana cobrirá o julgamento como se fosse evento desportivo, com placar, comentarista e reposição em câmera lenta. Haverá quem sustente que prender é rigor excessivo, haverá quem sustente que soltar é acinte à sociedade, e o debate preencherá manchetes pelos próximos dez dias como se a questão central fosse a liberdade provisória de dois sujeitos. Não é. A questão central é por que o Estado tem um banco, por que esse banco movimenta recursos fora do controle real de quem paga a conta, e por que o mesmo Estado que permitiu a farra agora se fantasia de justiceiro para julgar a si mesmo. Polícia investigando polícia, juiz julgando amigo de gabinete, ministério público processando ex-colega de concurso: o circo é integralmente financiado pela mesma plateia que apanha.
Quando este episódio cair no esquecimento, e cairá, porque a máquina de esquecimento brasileira trabalha em três turnos, fica a pergunta incômoda que ninguém quer responder em voz alta. Se um banco privado tivesse sido saqueado em cento e quarenta milhões, o dono teria ido à falência, os acionistas teriam processado a diretoria, os correntistas teriam fugido. O BRB, porém, continuará ali, robusto, imune, subsidiado, porque o prejuízo nunca foi do dono, foi do refém. E refém, já dizia o bom senso, não demite sequestrador. Só reza para sobrar vida no fim do plantão.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.