A Sunda Energy anunciou a suspensão das negociações para uma possível captação de recursos e, como sempre acontece nesses comunicados lacônicos endereçados ao mercado, o que não foi dito pesa mais do que o que foi. Empresa de energia não desiste de dinheiro barato por capricho. Desiste quando o dinheiro deixou de ser barato, quando o cenário virou incerto demais para justificar o custo de captação, ou quando os potenciais financiadores olharam para a planilha, olharam para o Brasil, e preferiram guardar o cheque para depois. Nenhuma dessas três hipóteses é elogiosa ao ambiente de negócios em que estamos operando.

Olha, o setor de energia é o termômetro mais honesto que existe. Não mente, não se maquia, não faz greenwashing convincente por muito tempo. Quando o capital foge de projetos energéticos, é porque enxergou o que os planejadores em Brasília fingem não ver, que a matriz elétrica virou refém de decisões políticas travestidas de decisões técnicas, que a segurança jurídica dos contratos virou piada interna dos investidores estrangeiros, e que qualquer empresa que hoje aposta em expansão está apostando também que o governo da vez não vai mudar as regras no meio do jogo. Aposta perdida em nove de cada dez casos.

Quer dizer, existe uma pergunta que ninguém do outro lado quer responder. Se o mercado de capitais estivesse funcionando como deveria funcionar num país sério, com juros civilizados, com moeda estável, com regras que não mudam a cada eleição, uma empresa como a Sunda estaria captando com filas de investidores na porta. O fato de ela estar engavetando a operação não diz nada sobre a Sunda; diz tudo sobre o Brasil que construímos, um país em que o capital produtivo compete de igual para igual com títulos públicos que pagam retornos absurdos porque o governo precisa financiar sua própria gastança irresponsável. É a velha história do soberano que suga toda a poupança do reino e depois reclama que ninguém investe no reino.

E aqui vale seguir o dinheiro que não vai aparecer. O capital que a Sunda deixaria de captar não some no ar. Ele muda de destino. Vai para o tesouro nacional via LFT, vai para paraísos fiscais via fundos offshore, vai para outros países que descobriram que segurança jurídica não é luxo, é infraestrutura. Cada projeto energético que morre antes de nascer é um efeito invisível que ninguém mede, empregos que não serão criados, cidades no interior que não serão eletrificadas com preços competitivos, indústrias que fecham porque a energia ficou cara, consumidor final que paga a conta duas vezes, primeiro na tarifa e depois no imposto que financia o subsídio da tarifa. O visível é o comunicado ao mercado. O invisível é o país inteiro perdendo oportunidade.

Me diz uma coisa, quem no seu juízo perfeito monta um plano de expansão de vinte anos num país onde a taxa Selic dança conforme o humor do Planalto, onde a agência reguladora troca de presidente conforme troca a base aliada, e onde o marco legal do setor pode ser reescrito por medida provisória num sábado à noite? Ninguém. E é exatamente por isso que estamos vendo, uma depois da outra, empresas suspendendo captações, adiando IPOs, engavetando projetos que estavam prontos para sair do papel. O empresário sério não é pessimista, é apenas alguém que aprendeu a ler o ambiente antes de queimar capital.

A verdade dura é que o Brasil escolheu, sucessivamente, ser um país onde o Estado gasta como se fosse rico, cobra como se fosse tirano e regula como se fosse dono. O resultado dessa equação está no comunicado da Sunda e vai estar no comunicado de dezenas de outras empresas nos próximos meses. Não é crise pontual, é o preço acumulado de décadas de escolhas ruins que agora vencem todas juntas. Enquanto o país inteiro discute o próximo pacote de bondades fiscais, o capital produtivo vota com os pés, silenciosamente, sem alarde, e vai embora. Quando acordarem, não haverá mais Sunda nenhuma para suspender captação, porque não haverá mais captação para ser suspensa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.