Marco Antônio Costa, o Superman das lives bolsonaristas, acordou senatoriável. Até outro dia era pré-candidato a deputado federal, cargo de quatro anos e trabalho braçal de plenário. Numa reviravolta digna de novela das nove, a cúpula do Novo resolveu que o rapaz merece coisa melhor: oito anos de mandato, foro privilegiado, salário de vinte e sete paus por mês, verba de gabinete, passagens aéreas, auxílio-moradia e aquele conforto silencioso de quem só precisa aparecer quando a câmera acende. A promoção veio sem primária, sem debate público, sem que o eleitor mineiro fosse consultado. Um partido que nasceu prometendo romper com o fisiologismo descobriu que o fisiologismo é confortável quando se senta do lado de dentro.
A pergunta que ninguém no partido quer ouvir é elementar: quem paga essa candidatura e quem recebe o retorno? Campanha ao Senado em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, não se faz com rifa de bolo na padaria. Fala-se em dezenas de milhões de reais, dos quais boa parte sairá do fundo eleitoral, aquele dinheiro que o contribuinte desembolsa sem ser perguntado, transferido compulsoriamente das mãos de quem acorda às cinco da manhã para as mãos de quem vai discursar contra o Estado inchado usando terno custeado pelo Estado inchado. O nome disso, no dicionário dos homens honestos, é confisco com finalidade decorativa.
Há uma lógica dura por trás do movimento, e ela não tem nada de ideológica. O partido precisa de palanque, o comentarista precisa de foro, o financiador precisa do comentarista calado nas horas certas e barulhento nas horas erradas. É a velha troca de favores repaginada com hashtag liberal. Quando alguém que vivia de audiência descobre que pode viver de mandato, a conversão é instantânea, e a coerência vira bagagem despachada. Julgue pelo que o homem faz, não pelo que ele grita no YouTube às dez da noite. O que ele está fazendo, concretamente, é abandonar a tribuna barata em troca da tribuna blindada.
E aqui entra a parte que ninguém comenta, porque dá trabalho pensar. Todo palanque nacional depende de três combustíveis: tempo de televisão, dinheiro de fundo partidário e capilaridade de máquina. Os dois primeiros, o contribuinte paga à força. O terceiro, o candidato compra com promessa. Traduzindo: você, mineiro que trabalha, já está financiando a campanha do sujeito mesmo sem tê-lo escolhido, mesmo sem gostar dele, mesmo que jamais vá votar nele. Essa é a beleza do arranjo eleitoral brasileiro. O imposto que sai do seu bolso volta como propaganda política na sua tela, e você ainda é convidado a bater palma chamando isso de democracia.
O detalhe mais saboroso é retórico. Um partido que se vende como antiestablishment escolhendo um rosto de televisão para ocupar uma das vagas mais caras do Congresso é o equivalente político de um monge que jura pobreza e aparece de relógio suíço. A narrativa diz renovação, o calendário diz cálculo, o orçamento diz fisiologismo. Quando todo mundo concorda que o nome é imbatível, que o momento é agora, que a oportunidade é única, é sinal de que alguém já fez a conta e o resultado não passou pela sua cabeça. O eleitor entra na história depois, como figurante, para carimbar a decisão que já foi tomada em sala climatizada.
Resta observar o espetáculo com o olho seco de quem já viu esse filme. O comentarista vai jurar que foi convocado pelo povo, o partido vai jurar que foi escolha técnica, a imprensa amiga vai jurar que é renovação da direita. No fim, quem paga é sempre o mesmo sujeito anônimo, e quem recebe é sempre o mesmo tipo de gente de gravata. Muda o figurino, muda o discurso, muda o logotipo no palanque. A mecânica, essa, permanece intocada desde que inventaram o imposto obrigatório e o mandato longo. Siga o dinheiro até o fim e encontrará, invariavelmente, a mesma porta fechada.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.