A cena é sempre a mesma. O Ministério da Saúde solta a nota oficial, os jornais amigos replicam o comunicado com entusiasmo de torcida organizada, e a população aplaude de pé como se tivesse acabado de ganhar na loteria. Desta vez, o troféu é o transplante de membrana amniótica, aquele tecido fininho da placenta que, por um capricho maravilhoso da biologia, cicatriza pé diabético, queimadura extensa e úlcera crônica com uma eficiência que beira o milagroso. Procedimento consolidado mundo afora desde os anos oitenta, usado em clínicas particulares brasileiras há pelo menos uma década, e que só agora, em abril de 2026, chega ao Sistema Único. Salva palmas? Não. Salva cara de paisagem.
Porque a pergunta fundamental, aquela que o jornalismo chapa branca jamais faz, é bem simples. Se o tratamento existia, se era barato, se era eficaz, se reduzia amputações, internações e complicações catastróficas que custam rios de dinheiro ao próprio contribuinte, por que diabos levou todo esse tempo para ser incorporado? A resposta não está na ciência. Está no balcão. Incorporar um procedimento ao SUS não é questão técnica, é questão política, e política, no Brasil, é coreografia entre burocrata, lobista de indústria farmacêutica e ministro com agenda eleitoral. Enquanto a membrana não era prioridade, o diabético ganhava curativo caro, antibiótico caro, amputação cara, prótese cara, aposentadoria por invalidez cara. Toda essa cadeia tem fornecedor, e todo fornecedor tem CNPJ, e todo CNPJ tem advogado, e todo advogado tem padrinho em Brasília.
O truque é sempre o mesmo e funciona há séculos, desde que reis medievais descobriram que racionar pão e depois distribuir migalhas com cerimônia rendia mais aplauso do que simplesmente deixar o mercado funcionar. Represa-se o acesso, cria-se a escassez artificial pela via regulatória, e quando finalmente se libera aquilo que nunca deveria ter sido proibido, o soberano aparece coroado como benfeitor da humanidade. A lógica é impecável no formato silogístico mais básico. Toda política pública beneficia alguém específico. Esta demora beneficiou setores específicos da cadeia hospitalar de alto custo. Logo, a demora não foi acidente, foi arranjo. Não precisa de teoria da conspiração, basta ler a bula do poder.
E tem ainda o detalhe delicioso de quem, na prática, vai fornecer a tal membrana. Bancos de tecidos credenciados, hospitais universitários, fundações de pesquisa, todo um ecossistema simbiótico que vive de convênio, emenda parlamentar e verba carimbada. O anúncio de hoje é o pontapé inicial de uma nova rodada de licitações, habilitações, chamamentos públicos e, como não poderia faltar, consultorias milionárias para organizar o que a iniciativa privada já organizou sozinha há muito tempo, sem drama e sem marcha fúnebre burocrática. O contribuinte paga três vezes. Paga o imposto que financia o sistema, paga o atraso que engordou fornecedores intermediários, e pagará agora o novo ciclo de contratos que vai se montar em cima do procedimento recém incorporado.
Enquanto isso, o diabético que perdeu o pé em 2019 continua sem pé. O queimado que ficou com sequela em 2021 continua com sequela. O consenso bem comportado dirá que antes tarde do que nunca, que é preciso comemorar o avanço, que criticar é fazer o jogo do negacionismo sanitário. Mentira conveniente. Quando todos concordam em aplaudir, geralmente é porque o espetáculo foi ensaiado. A função do observador honesto não é bater palma no ritmo certo, é perguntar por que a orquestra tocou tão devagar e quem lucrou com cada compasso de silêncio. O rei está nu, segurando um pedaço de placenta, e exigindo ovação.
No fim, volta a pergunta que abre e fecha qualquer análise séria sobre qualquer decisão estatal. Quem paga? O trabalhador sangrado pela carga tributária, o pequeno empresário estrangulado pela folha, o aposentado que viu o poder de compra ser comido pela inflação maquiada. Quem recebe? A rede de fornecedores homologados, os cargos comissionados que administrarão o novo programa, o ministro que botará a foto do anúncio no santinho, a indústria da cronicidade que viveu gorda durante todo o período em que o tratamento foi artificialmente indisponível. O milagre amniótico chegou. A conta, como sempre, vem depois, sem anestesia e sem placenta para cicatrizar.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.