Cole Tomas Allen, trinta e um anos, natural de Torrance, Califórnia, compareceu à Justiça americana depois de protagonizar mais um capítulo daquela série já familiar ao público: cidadão armado aparece em evento de Donald Trump, a segurança reage, o suspeito sobrevive, a identidade demora a ser oficialmente confirmada e a imprensa, sempre solícita, trata de empacotar o episódio no celofane gasto do lone wolf, o lobo solitário. É a terceira ou quarta vez que assistimos ao mesmo roteiro com pequenas variações de cenário. Quando algo se repete com tal regularidade, deixa de ser acaso e passa a ser padrão. E padrão, em política, nunca é gratuito.

Observe a coreografia. O suspeito não morre, o que seria inconveniente para qualquer investigação séria. A identidade vaza pela imprensa antes de qualquer comunicação oficial, o que é curioso num país onde o FBI costuma controlar narrativa com mão de ferro quando lhe convém. Não há ferido grave, não há mártir, não há vítima fatal que obrigue a opinião pública a parar de verdade. Há somente o suficiente para manchete, suficiente para o noticiário noturno, suficiente para alimentar três dias de debate televisivo e sumir. É a dose homeopática perfeita: assusta, não mata, e mantém o eleitor num estado permanente de adrenalina administrada.

Quem paga essa conta e quem recebe? Paga o contribuinte americano, que sustenta um aparato de segurança trilionário incapaz de impedir que sujeitos armados cheguem à distância de tiro de um ex-presidente e atual candidato. Recebe a indústria midiática, que vende espaço publicitário em cima de cada novo susto. Recebe o establishment partidário dos dois lados, que usa o episódio para justificar tudo, desde mais vigilância até menos liberdade de porte, a depender do figurino do dia. Recebe o próprio Trump, que sai do evento como sobrevivente bíblico, figura intocada pela providência, narrativa que vale ouro em comício. Não há tragédia política sem beneficiário, e é por isso que a tragédia política nunca falta.

A imprensa, claro, já está afiando o bisturi psiquiátrico. Daqui a quarenta e oito horas saberemos que Allen tinha histórico de instabilidade, postagens estranhas em redes sociais, talvez um diagnóstico mal cuidado, talvez consumo de substâncias, talvez uma infância difícil. É o kit de montagem padrão do desequilibrado isolado, peça a peça, parafuso a parafuso. O que jamais se pergunta em voz alta é por que esse tipo específico de desequilibrado, com esse tipo específico de obsessão, sempre encontra o mesmo tipo específico de alvo no mesmo tipo específico de momento eleitoral. As coisas são o que são, e quando o padrão grita, fingir surdez é cumplicidade.

Há uma lei não escrita do poder que vale a pena lembrar: quando uma instituição falha sistematicamente em sua função declarada, é porque está cumprindo perfeitamente uma função não declarada. O Serviço Secreto americano falha demais para ser incompetente. Falha de um jeito que sempre produz manchete sem produzir cadáver presidencial, o que exige timing de balé. Ou estamos diante da maior coleção de coincidências da história moderna, ou estamos diante de um teatro cuja bilheteria todos fingem não enxergar. Escolha sua hipótese e durma com ela.

Allen agora vira processo, vira prontuário, vira rodapé. A imprensa vai esquecê-lo em uma semana, o juiz vai despachá-lo em silêncio, e a próxima cena já está sendo ensaiada em algum lugar. O eleitor, esse personagem permanentemente espantado, voltará a se surpreender no próximo episódio como se nunca tivesse visto o anterior. E a engrenagem segue: assusta, comove, fatura, esquece. Repete. Quem paga? O de sempre. Quem recebe? Também o de sempre. O resto é figurino.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.