A imagem é quase poética na sua perversão: o homem que a polícia alemã aponta como principal suspeito de ter sequestrado e provavelmente assassinado uma menina de três anos em Portugal está vivendo numa barraca esfarrapada numa floresta do norte da Alemanha, comendo o que aparece, dormindo sobre folhas, longe de câmeras, longe de vizinhos, longe de qualquer farol institucional. Christian Brueckner, condenado múltiplas vezes por crimes sexuais, suspeito documentado de pelo menos um homicídio infantil de altíssima notoriedade, não está num presídio de segurança máxima. Está acampado. Como um escoteiro com ficha criminal de três dígitos.
E aqui começa o escândalo que ninguém quer encarar. O sujeito não fugiu pela mata porque é caçado pela lei. Ele anda pela mata porque a lei já fez com ele tudo que conseguiu fazer, e isso foi praticamente nada. Cumpriu pena por estupro, saiu, voltou, saiu de novo, foi acusado, foi absolvido, foi reacusado, e o sistema que vive nos cobrando imposto para nos proteger devolveu para a sociedade um predador que ele próprio reconhece como provável assassino de criança. Quem paga essa conta? O contribuinte alemão, o contribuinte português, e principalmente os pais de Madeleine, que financiaram com a própria filha o aprendizado tardio do aparato jurídico continental.
Há séculos a humanidade entendia uma coisa simples que o iluminismo penal apagou da memória oficial: existem indivíduos cuja periculosidade é estrutural, não circunstancial. Roma sabia, a Idade Média sabia, o mundo anglo-saxão sabia até virar refém da própria sofisticação processual. A política criminal moderna, embriagada de psicologia de boutique e de seminários sobre ressocialização, decidiu que todo monstro é apenas uma vítima mal compreendida da sociedade. Resultado prático: o monstro sai antes da vítima nascer de novo. E quando o monstro reincide, a culpa é do orçamento insuficiente, nunca da doutrina.
Siga o dinheiro e o quadro fica mais claro. Existe uma indústria inteira que vive da existência de homens como esse. Pesquisadores, ONGs de reinserção, comissões de direitos, peritos contratados, consultores de política penitenciária, jornalistas de longa duração. Brueckner solto rende artigo acadêmico, série de streaming, documentário, livro de não ficção, debate em horário nobre. Brueckner enforcado numa praça pública há vinte anos não renderia nada disso. O incentivo do sistema, queira o sistema admitir ou não, é manter o problema circulando, porque o problema circulando paga salário.
E ainda há a piada final, a que dá vontade de rir para não chorar. O cidadão comum, que jamais cometeu crime algum, é vigiado por câmera em cada esquina, fichado por algoritmo, multado por respirar fora da faixa, taxado por existir, e o Estado lhe explica que é tudo pelo seu bem, pela sua segurança, pelo bem das crianças. Enquanto isso, o homem que provavelmente matou uma criança real, de carne e osso, com nome e rosto e pais que envelheceram chorando, dorme numa lona furada à sombra de pinheiros alemães, livre como um pássaro, esperando a próxima oportunidade que a burocracia inevitavelmente lhe oferecerá. O rei está nu, e quem aponta o dedo ainda é tachado de extremista.
A pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta deste caso é a mesma. Quem paga? A menina pagou com a vida, os pais pagam com o luto perpétuo, o contribuinte paga com o bolso, a sociedade paga com o medo. Quem recebe? Recebe o suspeito, que recebeu décadas de liberdade que não merecia. Recebem os profissionais da indústria do crime que dele se alimentam. Recebe o aparato estatal, que justifica seu próprio inchaço apontando para o caos que ele mesmo cultiva. É um arranjo perfeito, desde que ninguém olhe para a tenda na floresta e se pergunte como diabos chegamos aqui.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.