Existe um momento específico nos mercados financeiros em que a ficção coletiva encontra a realidade concreta e o encontro não é bonito. Na última semana, esse momento chegou embalado em caracteres chineses e linhas de código: uma empresa que a maioria dos analistas de Wall Street nunca tinha ouvido falar lançou um modelo de inteligência artificial que rivaliza, em desempenho, com o que as grandes empresas americanas levaram anos e dezenas de bilhões de dólares para construir. O mercado reagiu como sempre reage quando descobre que pagou preço de obra-prima por uma vantagem que não era exclusiva, nem permanente, nem sequer especialmente difícil de replicar.
O que aconteceu com as ações de tecnologia americanas nas horas seguintes não foi um acidente técnico nem um exagero irracional de traders nervosos. Foi a correção, sempre tardia e sempre brutal, de uma precificação que embutia num punhado de empresas o custo inteiro de um suposto monopólio sobre o futuro da inteligência artificial. Esse monopólio, descobriu-se agora, nunca existiu. Existia apenas a suposição conveniente de que ninguém mais no planeta tinha capacidade de competir, e que portanto as margens seriam eternas, os valuations seriam justificados e os investidores poderiam dormir tranquilos. A startup chinesa chegou enquanto dormiam.
O franco suíço e o iene japonês subiram porque são o destino clássico do capital quando o capital precisa pensar. Não são moedas empolgantes, não prometem crescimento explosivo, não geram conferências TED sobre o futuro que estão construindo. São, precisamente por isso, onde o dinheiro corre quando percebe que esteve apoiando castelos de areia. Toda vez que o mercado elegeu um setor como o grande vencedor inevitável da próxima década e precificou essa certeza com antecedência, o resultado foi o mesmo: uma correção proporcional à arrogância da aposta. A Holanda do século XVII fez isso com tulipas. O mundo inteiro fez com empresas pontocom em 1999. Cada geração insiste em redescobrir que o preço de um ativo é uma opinião, não uma verdade.
O que torna este episódio particularmente instrutivo é a natureza do que foi subestimado. Não foi um competidor obscuro surgindo do nada por acaso, foi a manifestação de um princípio que qualquer pessoa com atenção à história tecnológica conhece bem: inovação não respeita fronteiras, não reconhece monopólios nacionais e tem a irritante tendência de aparecer onde menos se espera. Os americanos financiaram a infraestrutura, desenvolveram os chips, construíram os modelos fundacionais e, ao longo do processo, assumiram que o abismo entre eles e o restante do mundo era intransponível. O algoritmo chinês chegou para demonstrar, com elegância brutal, que o abismo era uma narrativa, não um fato.
Olha, o que se vê neste episódio é o pânico no painel das bolsas e os titulares sobre bilhões evaporados. O que não se vê, e que é infinitamente mais relevante para quem pensa além do pregão de amanhã, é o que essa precificação toda revelou sobre o mercado em si: uma concentração absurda de capital em poucas empresas, ancorada não em fundamentos sólidos mas na crença de que o Estado americano, via restrições a exportações de chips e pressão geopolítica, manteria o monopólio artificial indefinidamente. Quando o mercado aposta em barreiras regulatórias e não em superioridade genuína, está, na prática, apostando que o governo vai trabalhar a seu favor para sempre. Raramente termina bem.
O dólar cedeu. O iene e o franco avançaram. E Wall Street ficou com o olhar de quem acabou de perceber que a festa tinha um preço que ninguém tinha calculado direito. A inteligência artificial não é americana por direito natural, assim como o automóvel não era alemão para sempre, nem o aço era inglês por direito divino. Quem precificou o futuro como se fosse propriedade exclusiva de meio dúzia de empresas num único país vai continuar aprendendo esta lição repetidas vezes, até que pare de subestimar o mundo e comece a prestar atenção nele.
Com informações do Wall Street Journal. A análise e opinião são do O Algoz.