A deputada Tabata Amaral protocolou no Ministério Público Federal uma notícia-crime pedindo investigação sobre as festas promovidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o mesmo personagem que protagoniza o escândalo do Banco Master. O documento, entregue nesta sexta-feira, fala em indícios de tráfico de mulheres, e a palavra é dura porque a coisa é dura. Não estamos diante de um jantar regado a vinho ruim e conversa de elevador; estamos diante da suspeita de que mulheres eram movimentadas como ativos circulantes, no mesmo balanço em que o banqueiro contabilizava influência política, contratos públicos e a benevolência de fundos de pensão estatais que insistem em tratar dinheiro alheio como mesada de tio rico.
Convém olhar o quadro inteiro antes de se comover com o detalhe. O Banco Master cresceu vendendo CDB com juros que qualquer adolescente com calculadora identificaria como insustentáveis, encheu o cofre com aplicações de gente comum atraída pelo Fundo Garantidor de Créditos, e quando a casa começou a tremer apareceu, como num passe de mágica, a tentativa de jogar o esqueleto para o BRB, banco público do Distrito Federal. Tradução em português claro: o lucro era privado, com champanhe e festas; o prejuízo seria socializado, com sua conta de luz e seu imposto. É o velho truque do cassino que privatiza a banca quando ganha e estatiza quando perde, e que no Brasil tem uma fila de aplaudidores em terno escuro pronta para chamar a manobra de salvamento sistêmico.
Agora some a esse arranjo a denúncia das festas. Banqueiro em desespero financeiro não promove orgia por hedonismo; promove por engenharia de relacionamento. Mulher virou cortesia corporativa, parlamentar virou convidado, regulador virou figurante simpático, e o ambiente serve para o que sempre serviu desde que existem reis com saco de moedas: comprar lealdades sem assinar recibo. A história está cheia de impérios que ruíram pelo mesmo método, do banqueiro florentino que financiava cardeais ao especulador que enchia de uísque os senadores americanos da era da Lei Seca. Muda o figurino, não muda a coreografia. Onde há dinheiro suspeito implorando por proteção política, sempre haverá carne humana servida em bandeja como argumento auxiliar.
O silogismo é cruel e didático. Se o Estado concentra o poder de decidir quem vive e quem morre no mercado financeiro, e se quem vive e quem morre vale bilhões, então o preço de comprar essa decisão será proporcional aos bilhões em jogo. A festa, portanto, não é desvio de conduta; é planilha de custos. O escândalo moral é apenas a parte visível de um escândalo estrutural muito maior, que é o de uma economia onde o sucesso de um banco depende menos da qualidade de seus ativos e mais da qualidade de seus contatos no Planalto, na autarquia reguladora e na diretoria de banco público que assina cheque sem ler o verso.
E vale registrar a ironia de fundo. A mesma classe política que se comove publicamente com pautas de dignidade feminina em pronunciamento de plenário é, em larga medida, a freguesia natural desse tipo de soirée, porque é nela que se costuram as emendas, os apoios, os silêncios convenientes. A notícia-crime de uma deputada é bem-vinda e merece andar, mas não nos enganemos: o problema não se resolve trocando o anfitrião da festa nem prendendo o banqueiro da vez. Resolve-se desmontando o mecanismo que torna a festa rentável, ou seja, cortando do Estado o poder discricionário de salvar amigos e afundar inimigos. Enquanto houver salvamento bancário pago com dinheiro público, haverá champanhe, haverá mulher traficada como brinde e haverá deputado fingindo surpresa na segunda-feira de manhã.
No fim da contabilidade, sobra a pergunta de sempre, aquela que nenhum balanço auditado responde mas que todo cidadão honesto sente no bolso. Quem pagou a orquestra dessa festa? O correntista iludido pelo CDB com taxa de fantasia, o contribuinte do Distrito Federal cujo banco quase virou lixeira do Master, o trabalhador descontado em folha que sustenta fundos de pensão investidos em aventura. E quem recebeu? O banqueiro que comprou tempo, o político que comprou conforto, o intermediário que comprou silêncio. O resto é decoração, inclusive a indignação tardia da imprensa palaciana que descobre o óbvio sempre depois que a banda já passou e a conta já foi rachada entre os de sempre.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.