O apresentador perdeu o irmão, figura maior do basquete nacional, e no mesmo expediente subiu ao palco iluminado para inaugurar mais uma temporada do confinamento que há vinte e seis anos entretém o país. Prestou homenagem, prometeu se recuperar, seguiu o roteiro. E o Brasil, sentimental como sempre, aplaudiu a dedicação. Ninguém parou para perguntar a coisa óbvia: por que um enlutado precisa trabalhar no dia do enterro do próprio sangue? Porque o espetáculo não para. Nunca parou. E quem assina o contrato sabe muito bem disso antes de sentar na cadeira.
Há uma lógica fria por trás da comoção manufaturada. A emissora investe centenas de milhões na temporada, vende cota de patrocínio a peso de ouro, negocia merchandising dentro da casa por valores que fariam corar um corretor de imóveis do Leblon. Cada segundo do programa está contabilizado numa planilha em algum andar executivo. Parar a estreia por luto pessoal do apresentador custaria o equivalente ao PIB de uma cidade pequena do interior. Então não para. E o funcionário, por mais graduado que seja, por mais intocável que pareça, entende o recado que ninguém precisa dizer em voz alta.
Chamam isso de profissionalismo. É uma palavra bonita para descrever uma coisa feia: a conversão do afeto humano em externalidade descartável. O Coliseu romano também funcionava assim. Os gladiadores sangravam, as feras rugiam, o povo delirava, e os empresários do espetáculo contavam moedas nos bastidores. Mudaram o figurino, trocaram a areia pela alcatifa colorida, substituíram as feras por anônimos em busca do prêmio milionário, mas a engrenagem é idêntica. Precisa de corpos, precisa de lágrimas, precisa de histórias. E quando a história cai no colo do apresentador num dia de luto, melhor ainda. Vira narrativa.
O mais perverso é o truque retórico que transforma obrigação contratual em virtude moral. Dizem que foi honra à memória do irmão. Seria honra também ficar em casa de luto fechado, cumprindo o rito milenar que toda civilização séria reservou aos seus mortos. Os antigos sabiam que existe um tempo para plantar e um tempo para colher, um tempo para chorar e um tempo para trabalhar, e confundir os dois é sinal de sociedade doente. Nossa doença tem nome comercial, tem patrocínio, tem break comercial a cada quinze minutos.
Enquanto o apresentador engolia o choro diante das câmeras, o país assistia comovido sem fazer a pergunta que interessa. Quem ganha com isso? Ganha a emissora, que transforma tragédia pessoal em pico de ibope. Ganham os anunciantes, que compram atenção emocionada por preço de sexta-feira santa. Ganha o gerente do marketing, que já está redigindo o case premiado para o festival de publicidade. E quem paga? Paga o funcionário, na carne. Paga o telespectador, que aceita a manipulação afetiva como se fosse gesto humano. Paga a cultura inteira, que desaprende aos poucos o que significa respeitar um morto.
Talvez seja esse o preço real do entretenimento de massa, essa mercadoria estranha que exige sacrifício humano para se sustentar. Não o preço da inscrição no reality, não o cachê do apresentador, não o valor da cota. O preço de civilização, pago em prestações silenciosas, toda vez que engolimos como natural aquilo que nenhum povo decente antes de nós teria tolerado. O rei manda o bobo entrar em cena no dia do enterro do irmão, e o bobo entra, e a plateia aplaude. Falta combinar com a dignidade humana, que essa ninguém consultou.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.