Oscar Schmidt morreu nesta sexta e levou consigo algo que o brasileiro médio, educado a pão e circo oficial, já não sabe reconhecer: a grandeza que se ergue sozinha, sem muleta de secretaria, sem cota de empresa estatal, sem padrinho em Brasília. O homem cravou quase quarenta e nove mil pontos numa bola de basquete ao longo de três décadas de quadra, liderou artilharias em cinco Olimpíadas, e fez isso enquanto o país discutia, em eterna roda, qual seria o próximo tributo a ser inventado para financiar a mediocridade alheia. Tadeu, o irmão, chora na Time Brasil TV e diz que a geração atual não entende o tamanho dele. Claro que não entende. Foi ensinada, com método, a não entender.
Entender Oscar exige um instrumento que a escola brasileira desaprendeu a afiar: a capacidade de distinguir o que é grande do que é apenas barulhento. Uma geração que confunde engajamento com relevância, viralização com legado, aparição em reality com obra feita, não tem como mensurar um sujeito que passou a vida treinando enquanto ninguém filmava. Ele recusou a NBA justamente quando a NBA era o Olimpo do dinheiro fácil, porque havia algo que valia mais do que o contrato: o compromisso com a camisa, que então ainda significava alguma coisa que não cabia em planilha. Hoje, recusar dinheiro por princípio virou exotismo, quase patologia diagnosticável. Antigamente chamavam isso de caráter.
Siga a trilha e repare no detalhe que ninguém quer enxergar. O basquete do Mão Santa floresceu no Brasil sem que o Estado soubesse direito o que estava acontecendo. Não houve programa federal, não houve comitê gestor, não houve fundo público para fabricar o monstro de Natal. Houve um garoto, uma bola, uma quadra, uma família, um clube, uma rotina monástica que ninguém pagou para ele cumprir. O mesmo país que produziu esse fenômeno à revelia da burocracia gasta hoje cifras obscenas em pastas esportivas que não formam sequer um pivô passável. Quando a máquina pública decidiu abraçar o esporte de maneira grandiosa, o que ela nos devolveu? Arenas brancas como elefantes, cartolas bilionários e seleções que saem em primeira fase. O talento, como sempre, nasce no canteiro onde o governo ainda não botou a pá.
Há um silogismo cruel escondido nessa trajetória, e quem tem paciência de montá-lo vê a figura inteira. Se a grandeza pessoal se constrói pela disciplina, pela repetição, pelo ato privado e obstinado de acordar às cinco da manhã quando ninguém está olhando, então a grandeza é, por natureza, obra do indivíduo. Se é obra do indivíduo, o Estado que se arroga criador de heróis está, na melhor das hipóteses, mentindo, e na pior, atrapalhando. Oscar é a premissa viva desse raciocínio, e é por isso que incomoda o espírito da época. Uma sociedade que adora coletivos abstratos fica sem jeito diante de um sujeito concreto que venceu sozinho e não pediu licença a ninguém.
E há ainda o capítulo que mais dói, o da memória. Morre um gigante e metade da linha do tempo digital pergunta quem era. Nada mais eloquente sobre o colapso da formação cultural de um povo que transformou a História em tema facultativo e a admiração em algoritmo. Celebra-se por uma tarde, com emoticon de coração, o homem que deveria servir de referência por décadas, e na segunda já se está discutindo o próximo dançarino de TikTok. Essa amnésia não é acidente, é projeto. Povo sem memória é povo sem parâmetro, e povo sem parâmetro aceita qualquer coisa vinda de cima, inclusive o patético espetáculo de políticos correndo para posar ao lado do caixão de quem nunca os quis por perto em vida.
Tadeu, no meio das lágrimas, foi mais preciso do que talvez tenha percebido. A geração atual não entende o tamanho de Oscar porque tamanho, de verdade, não se mede em curtidas, em trending topic, em nota oficial emocionada do Ministério de plantão. Mede-se na dureza do chão onde o sujeito caiu e levantou sozinho, sem edital, sem cota, sem o beijo da mãe amorosa do poder. O Mão Santa foi grande porque foi livre, e foi livre porque foi inteiramente dono da própria obra. Se a geração atual não entende isso, talvez o problema não esteja nela. Esteja no modelo que lhe ensinaram, desde pequena, a chamar de normal.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.