O Índice Taiwan Weighted subiu 1,80% no pregão desta sessão, e a notícia parece pequena até você lembrar que essa ilha do tamanho da Bahia produz os semicondutores que fazem o iPhone funcionar, o míssil americano acertar o alvo e o carro elétrico alemão sair da garagem. Um espaço que qualquer geógrafo distraído chamaria de irrelevante concentra a espinha dorsal tecnológica do planeta, e o pregão de hoje é apenas o lembrete diário de que capital, quando pode escolher onde pousar, escolhe onde é respeitado.

Repare no contraste que ninguém quer ver. Do outro lado do Pacífico, a maior economia do mundo gastou dezenas de bilhões de dólares em um pacote pomposo para "trazer os chips de volta", com direito a inauguração de fábrica, discurso de presidente e capacete amarelo na cabeça. Resultado: atrasos, custos triplicados, disputas sindicais e engenheiros taiwaneses tendo que voar até o Arizona para ensinar americanos a fazer o que taiwaneses fazem há trinta anos sem subsídio nenhum. O que se vê é a foto do político cortando a fita; o que não se vê é o contribuinte pagando três vezes o preço para produzir metade da qualidade.

Taiwan não é milagre, é consequência. Consequência de décadas de propriedade privada respeitada, tributação previsível, câmbio que não é usado como brinquedo eleitoral e um Estado que aprendeu, na marra, que o burocrata em Taipei não sabe fabricar um wafer de silício de sete nanômetros melhor do que o engenheiro que passa dezesseis horas por dia dentro do laboratório. Enquanto ministros de "desenvolvimento" no resto do mundo desenham planilhas com metas de indústria 4.0, os taiwaneses simplesmente deixaram gente competente ficar rica fazendo coisas difíceis. É brutalmente simples, e por isso ninguém copia.

Siga o dinheiro do pregão de hoje e você vai encontrar TSMC, Foxconn, MediaTek e uma constelação de empresas que ninguém em Brasília saberia soletrar, mas que capitalizam mais do que a Petrobras, a Vale e os três maiores bancos brasileiros somados. Cada ponto que o índice sobe é um voto silencioso do capital global dizendo que prefere estar sob a mira dos mísseis chineses a estar sob a tutela do BNDES. Prefere risco geopolítico real a risco regulatório inventado. É um julgamento devastador sobre quem sabe cuidar do próprio quintal.

Há uma lição que dói admitir para quem passou a vida acreditando que país só cresce com plano quinquenal e ministério forte. Taiwan não tem petróleo, não tem terras raras em abundância, não tem mercado interno gigante, não tem sequer reconhecimento diplomático da maioria dos países que compram seus chips. Tem, apenas, aquilo que virou artigo de luxo no século XXI: instituições que funcionam, contratos que se cumprem, poupança que rende e um povo que foi deixado em paz para trabalhar. O resto do mundo tem ministério de tudo e não consegue fabricar um transistor competitivo.

A alta de 1,80% de hoje não é notícia de mercado, é notícia civilizacional. É o pequeno recado, repetido pregão após pregão, de que a prosperidade não se decreta em Diário Oficial, não se planeja em comitê tripartite e não se importa em pacote de estímulo. Ela brota, teimosa, onde o governo tem a humildade rara de saber o tamanho da própria ignorância. Enquanto continuarmos achando que o problema do Brasil se resolve com mais Estado, Taiwan continuará subindo, e nós continuaremos exportando soja para pagar o chip que eles fabricam.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.