O governador de São Paulo subiu ao palco dos cinquenta anos da Defesa Civil para anunciar, com a solenidade que só um político em campanha permanente consegue fabricar, que o estado passará de sete para quinze radares meteorológicos. Oito aparelhos novos, reluzentes, capazes de detectar tempestades com antecedência e emitir alertas à população. O público aplaudiu. A imprensa registrou. Ninguém perguntou o óbvio: quanto custa cada um desses radares, quem fornece, por qual processo licitatório, e por que um estado com o orçamento de São Paulo operava até ontem com míseros sete? Se a previsão meteorológica é tão vital quanto o discurso sugere, a negligência anterior é criminosa. Se não é tão vital assim, o gasto atual é propaganda.

Existe um padrão que se repete com a regularidade de um relógio suíço na administração pública brasileira. Primeiro, o Estado falha em sua função mais elementar. Pessoas morrem em deslizamentos, enchentes arrastam casas, bairros inteiros ficam submersos. Segundo, vem o luto institucional, as coletivas de imprensa, os decretos de emergência. Terceiro, e aqui está o pulo do gato, anuncia-se um investimento vultoso em tecnologia, infraestrutura ou pessoal. A máquina estatal transforma a própria incompetência em justificativa para gastar mais. O incêndio que o bombeiro não apagou vira argumento para comprar um caminhão novo. O ciclo se completa quando o contribuinte, que já pagou pelo serviço que não recebeu, paga novamente pela promessa de que desta vez será diferente.

Sigamos a trilha do dinheiro, que é sempre mais instrutiva que a trilha das boas intenções. Radares meteorológicos são equipamentos de alta complexidade, fornecidos por um punhado de empresas no mundo. O mercado é restrito, os contratos são gordos, e a urgência climática funciona como dispensa de licitação disfarçada de interesse público. Não estou dizendo que houve irregularidade, estou dizendo que o cenário é o paraíso dos intermediários. Toda vez que o Estado anuncia compras emergenciais de tecnologia sofisticada, alguém no meio da cadeia sorri. E esse alguém jamais aparece na foto da coletiva de imprensa. Aparece, sim, no extrato bancário, três meses depois, quando ninguém mais está prestando atenção.

O que nenhum radar do mundo resolve, e que nenhum governador tem coragem de dizer, é que o problema de São Paulo não é meteorológico, é fundiário. As pessoas que morrem em enchentes e deslizamentos não morrem porque faltou alerta; morrem porque moram onde não deveriam morar, em encostas e várzeas que o próprio poder público loteou, regularizou ou simplesmente fingiu não ver durante décadas em troca de votos. O radar detecta a chuva. E depois? O alerta chega ao celular de quem mora numa favela em área de risco. Para onde essa pessoa vai? Com que dinheiro? Para qual endereço? O radar é a tecnologia perfeita para o político moderno: visível, caro, fotogênico e absolutamente incapaz de resolver a causa do problema. É o equivalente administrativo de dar um guarda-chuva a quem precisa de uma casa.

Tarcísio sabe o que faz. É engenheiro, homem de números, e certamente entende que quinze radares não salvam quem o zoneamento urbano condenou. Mas o cálculo político tem sua própria aritmética, e nela o que conta não é a vida salva, é a manchete publicada. Duplicar o número de radares soa como duplicar a proteção. É matemática de palanque, não de engenharia. O contribuinte paulista, que já sustenta uma das máquinas tributárias mais vorazes do hemisfério, vai pagar a conta sem sequer saber o valor dela, porque o anúncio veio cheio de promessas e vazio de números. Quando o próximo temporal matar gente em Guarulhos ou no litoral norte, os radares terão funcionado perfeitamente. Terão detectado a chuva com horas de antecedência. E as pessoas terão morrido do mesmo jeito, porque o problema nunca foi a falta de previsão. Foi a presença de um Estado que cobra como seguradora e entrega como loteria.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.