Quarenta e oito vírgula dois contra trinta e dois vírgula três. A matemática é cruel com quem aposta na amnésia do eleitor paulista. O atual governador abre quase dezesseis pontos de vantagem sobre o ministro da Fazenda em pesquisa da Vox Brasil, e o detalhe gostoso é que essa diferença não cai do céu, ela é o boleto chegando para uma administração federal que descobriu, tarde demais, que São Paulo não é uma assembleia de partido em Diadema. Aqui o cidadão olha o contracheque antes de olhar a propaganda.
Convém lembrar quem está em cada ponta dessa balança. De um lado, um governador que herdou a máquina paulista, manteve privatizações andando, evitou o suicídio fiscal e, no susto, aprendeu a falar com a classe média que financia o circo nacional. Do outro, o homem que foi prefeito da capital, perdeu a reeleição de forma humilhante, perdeu a presidência para um capitão, e agora ocupa o ministério encarregado de explicar por que o seu salário rende cada vez menos no supermercado. Pedir voto a quem você empobrece é uma forma sofisticada de comédia, e o paulista, parece, não está achando graça.
Siga o dinheiro e a charada se desfaz sozinha. O eleitor de São Paulo é, na esmagadora maioria, pagador líquido da federação. É dele que sai o imposto que viaja de avião para alimentar bases eleitorais em estados onde votar no governo é sinônimo de receber transferência mensal. Quando esse pagador percebe que o ministro da Fazenda do partido adversário quer se mudar para o Bandeirantes, ele faz aquilo que nenhum marqueteiro consegue desfazer com vinhetas emocionadas: ele calcula. E o cálculo, friamente, dá quase dezesseis pontos de prejuízo para quem assina a alta da gasolina, a sangria do dólar e o aperto do crédito.
Há ainda a moldura cultural, que ninguém quer enxergar porque é constrangedor admitir. A esquerda brasileira passou tanto tempo se convencendo de que a guerra é entre os bons sentimentos dela e o atraso dos outros que esqueceu o trivial: política se ganha entregando resultado, não emitindo declaração de princípios. O eleitor paulista não está pedindo discurso sobre democracia, está pedindo segurança no metrô, escola que ensine ler, posto que atenda e dinheiro que não vire pó na carteira. Quem tenta vencer essa eleição com camiseta vermelha e indignação seletiva descobre, na pesquisa, que indignação não paga conta de luz.
O movimento ainda nem começou de fato e a fotografia já é constrangedora para quem chega como salvador. Pesquisa de abril não elege ninguém, é verdade, mas estabelece o piso da realidade contra o qual a campanha terá que nadar. E o piso, neste caso, diz que metade do estado já decidiu, e a outra metade está esperando ver se a Faria Lima e a periferia continuam concordando em algo raro: que governo bom é aquele que atrapalha menos. Aristocracia popular, se é que isso existe, é exatamente isto, o sujeito que entende seu próprio bolso melhor do que o intelectual que o quer libertar.
No fim das contas, a pergunta é a de sempre. Quem paga e quem recebe? Em São Paulo, quem paga ainda tem o luxo raro de votar, e está avisando, com números, que não pretende financiar o próprio empobrecimento por mais quatro anos. O resto é cortina de fumaça, pesquisa interna vazada e jornalista de aluguel tentando convencer o leitor de que trinta e dois é o novo quarenta e oito.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.