Num domingo qualquer de maio, o leitor brasileiro abre o portal de notícias procurando entender por que o quilo do filé mignon virou artigo de luxo, e é recebido por uma cigana digital prometendo que Áries terá um dia produtivo se confiar na intuição. A redação que se vende como guardiã da democracia, fiscal do poder e farol da civilização, dedica recursos editoriais, programadores, designers e tráfego pago para informar a Sagitário que Vênus está em harmonia com Plutão. É a mesma página que cobra assinatura premium para entregar jornalismo sério.
Convém parar e perguntar a coisa óbvia que ninguém quer formular: quem paga essa palhaçada e quem embolsa o cheque. Paga o anunciante de banco, de plano de saúde e de governo, que precisa de cliques baratos para justificar a verba publicitária do trimestre. Recebe o portal, que descobriu há muito tempo que astrologia, novela e celebridade rendem dez vezes mais engajamento do que reportagem investigativa, e custam um décimo. O resultado é uma equação simples de mercado disfarçada de missão jornalística, onde o cidadão entra como matéria-prima emocional a ser refinada em métrica de página vista.
O fenômeno tem precedente histórico bem documentado, e não é novo. O imperador romano em decadência soltava pão de graça e marcava jogos no Coliseu sempre que o tesouro entrava em colapso e a moeda perdia o lastro de prata. A diferença é que o tribuno romano pelo menos tinha a honestidade de admitir que distraía a plebe; o editor moderno se diz preocupado com a saúde mental do leitor enquanto lhe enfia goela abaixo o equivalente esotérico de uma bala de goma. Mudou a embalagem, o circo continua de pé, e o ingresso agora é pago em dado pessoal e atenção sequestrada.
Há ainda a dimensão lógica da farsa, que merece uma palavra. Se as cartas de fato previssem o dia de doze grupos de seiscentos milhões de pessoas cada, com a mesma carta valendo igualmente para o operário de Manaus e para o banqueiro de Zurique, então o conceito de previsão não significa absolutamente nada, porque qualquer afirmação suficientemente vaga se confirma em alguma vida em algum momento. Chama-se isso de fraude estatística desde que o homem inventou a estatística, e o jornal que estampa horóscopo na capa sabe disso tão bem quanto sabe que a sua ombudsman jamais ousará escrever uma coluna sobre o assunto.
O mais irritante, contudo, não é o engodo em si, que é tão antigo quanto o xamã da tribo prevendo chuva no fim da seca. O irritante é o duplo padrão moral. A mesma intelligentsia que ridiculariza o pastor neopentecostal por vender água ungida acha charmoso quando a colunista paga por matéria assinada decreta que Câncer precisa de autocuidado emocional. A superstição da senhora rica em apartamento na zona sul é cultura, a do pedreiro evangélico no subúrbio é alienação. Hipocrisia tem CEP, e o CEP da hipocrisia coincide milimetricamente com o CEP de quem recebe verba de publicidade institucional.
No fim da contagem, a única previsão garantida para qualquer signo neste domingo é a chegada pontual do Leão de fato existente, aquele de gravata e carimbo, que já levou metade do salário antes mesmo de o leitor terminar de embaralhar o destino. Cartas mentem com elegância, planetas com poesia, governos com decreto publicado em diário oficial. A diferença entre o tarólogo e o ministro da fazenda é que o primeiro pelo menos não te obriga a pagar pela leitura sob ameaça de penhora. Quem paga, no fim, é sempre o mesmo. Quem recebe também.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.