Mais um domingo, mais uma rodada de previsões astrológicas distribuídas como se fossem boletim meteorológico do destino. Doze signos, doze cartas, doze conselhos genéricos o suficiente para servir a qualquer pessoa que respire e tenha boletos a pagar. O ritual se repete com a pontualidade de uma missa, e ninguém se pergunta o óbvio: quem ganha dinheiro com isso? Porque alguém ganha, e muito. O portal publica, o tráfego sobe, o anunciante paga, e o leitor sai dali convencido de que o universo conspira a seu favor ou contra ele, dependendo do humor da cartomante de plantão.
A engenhoca é antiga, mais velha que qualquer república. Na Babilônia já se vendia o futuro a peso de ouro, na Roma imperial os augures examinavam fígados de galinha para decidir guerras, e o resultado prático era sempre o mesmo: o sacerdote comia bem, o consulente saía mais pobre, e o império seguia o curso que os homens com poder real já tinham decidido nos bastidores. Mudou o cenário, mudou o figurino, a essência permanece intocada. Hoje o oráculo veste blazer, fala em câmera de celular vertical, e a galinha foi substituída por um baralho colorido impresso em offset. O negócio é o mesmo: vender alívio psicológico a quem não suporta a responsabilidade da própria escolha.
Repare na estrutura do golpe, porque é uma maravilha de engenharia comercial. As previsões são vagas o bastante para caberem em qualquer vida, otimistas o bastante para gerarem cliques, e pessimistas o bastante para criarem necessidade da próxima consulta. É o modelo de assinatura mais antigo da história humana, anterior à Netflix por alguns milênios. O sujeito acorda angustiado, lê que sua carta do dia é a Roda da Fortuna, sente-se compreendido por um universo de papelão, e volta amanhã para checar se a Lua continua benevolente. Enquanto isso, a vida real, aquela que exige trabalho, juízo e decisão, segue intocada pelo seu otimismo astral.
O ponto incômodo, que nenhum colunista de horóscopo vai sublinhar, é que essa dependência tem um custo civilizacional pesado. Uma população que terceiriza decisões para baralhos é uma população madura para terceirizar decisões para burocratas, para sindicatos, para partidos, para qualquer figura de autoridade que prometa interpretar o caos em seu lugar. Quem entrega o domingo ao tarô entrega a aposentadoria ao governo, a educação dos filhos ao ministério, a saúde ao posto, a renda à inflação que ninguém explica. A musculatura da autonomia atrofia por desuso, e quando o cidadão precisa dela para resistir a um confisco, descobre que esqueceu como se usa.
Há também o detalhe nada secundário do mercado paralelo que floresce ao redor. Cursos de tarô, certificações esotéricas, consultorias espirituais, mentorias quânticas, e toda uma economia de coaches que cobram caro para repetir o que sua avó dizia de graça. Nada disso seria problema se fosse transação voluntária entre adultos plenamente informados, mas o que se vende ali não é entretenimento confessado, é alívio para a ansiedade fabricada por décadas de manipulação cultural que ensinaram o sujeito a desconfiar do próprio juízo. A oferta cria a demanda, e a demanda sustenta a oferta, num ciclo lucrativo que se autoalimenta como qualquer boa pirâmide.
No fim, fica a pergunta que importa, a única que importa: o domingo de cada signo será o que cada um fizer com ele, e nenhum arcano maior vai pagar a conta de luz que vence terça. O baralho não tem culpa, ele é apenas papelão pintado. A culpa é de quem prefere a fantasia de um destino traçado à dura liberdade de ter que escolher, errar, e responder pelas próprias escolhas. Liberdade dá trabalho, e por isso vende menos que tarô. Pena.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.