Domingo, 26 de abril, e lá vem a tiragem sagrada para os doze signos. A carta da Imperatriz para Touro, o Eremita para Capricórnio, a Roda da Fortuna para Sagitário, e por aí vai a parafernália esotérica que enche página de portal, alimenta engajamento e converte ansiedade existencial em receita publicitária. O escândalo não está no tarô em si, que é um baralho de gravuras renascentistas com simbologia bonita e nada mais; o escândalo está no fingimento coletivo de que aquilo significa alguma coisa concreta sobre o seu domingo, sua carreira, seu casamento ou seu rim direito.

Pare e pense no truque. A previsão diz que você vai enfrentar um desafio inesperado, mas que a sabedoria interior te guiará. Diz que uma porta se fecha enquanto outra se abre. Diz que é hora de cuidar das finanças com prudência. Pergunto: existe ser humano vivo, em qualquer canto do planeta, em qualquer dia da semana, para o qual essas frases não se apliquem? É o velho golpe do adivinho de feira, hoje vestido de aplicativo com design bonitinho e assinatura mensal. Vendem a você uma roupa tamanho único e juram que foi costurada sob medida.

Agora siga o dinheiro, que é onde mora a verdade. Quem ganha com a coluna diária de horóscopo? O portal, que transforma sua insegurança em cliques e os cliques em anúncio programático. O tarólogo, que cobra trezentos reais por meia hora de conversa fiada com baralho colorido. O algoritmo de rede social, que aprendeu que conteúdo místico vicia mais rápido que cocaína de boteco. E quem perde? Você, que poderia estar lendo um livro de verdade, conversando com um amigo de carne e osso, ou simplesmente parado olhando para o teto, atividade infinitamente mais produtiva do que terceirizar suas decisões para cartas pintadas no século quinze.

Há algo de profundamente humilhante na adesão massiva a esse circo. O sujeito moderno se diz cético, racionalista, científico, ri da fé do avô que rezava o terço, e duas linhas depois consulta o aplicativo para saber se hoje é bom dia para mandar mensagem para o ex. Trocou-se o padre pelo influenciador místico, a indulgência pela assinatura premium, o purgatório pelo retrógrado de Mercúrio. A natureza humana detesta o vazio do não saber, e sempre haverá um mercador esperto disposto a vender certeza fabricada por quilo. Era assim na Babilônia, era assim em Delfos, é assim no Instagram.

O mais cômico é a sofisticação pseudocientífica que essa indústria cultiva. Falam em arquétipos, em sincronicidade, em campos energéticos, em frequências vibracionais, palavras grandes encadeadas para dar verniz de seriedade ao que é, no fundo, palpite com cenografia. Se funcionasse de fato, os tarólogos seriam donos da bolsa de valores, não trabalhariam aos domingos escrevendo coluna para portal de notícia. A prova mais elementar de que a previsão não prevê está na biografia de quem a vende, e ninguém quer olhar para isso porque é mais confortável continuar pagando pela ilusão.

Cuide da sua vida com a cabeça que você tem, gaste seu dinheiro em coisa que se possa tocar, e desconfie de todo profissional cuja receita depende de você continuar perdido. O domingo será exatamente aquilo que você fizer dele, sem carta, sem astro, sem oráculo. A liberdade começa no instante exato em que se para de delegar o próprio destino a vendedor de fumaça, seja ele o burocrata em Brasília ou o místico no aplicativo. O resto é entretenimento, e entretenimento caro paga a conta de quem?

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.