A tartaruga-de-pente nada hoje no Caribe mexicano, o macaco-prego pula nas matas equatorianas e o papagaio-de-peito-vinhoso volta a colorir o céu argentino, e a imprensa internacional, com aquela cara de quem engoliu sapo, é obrigada a admitir o constrangedor: a salvação dos bichos não veio de Genebra, não veio de Brasília, não veio de nenhuma cúpula climática com canapés e jatinhos privados. Veio do pescador, do caboclo, do ribeirinho, do sujeito que mora a quinze quilômetros do ninho e sabe o nome de cada filhote. O eufemismo oficial chama isso de esforço comunitário, expressão polida para esconder a verdade incômoda de que onde o Estado não mete a pata, a vida prospera.
Vale a pena demorar no detalhe, porque o detalhe é onde mora a heresia. Durante décadas, a tartaruga-de-pente foi protegida por convenções, protocolos, siglas em inglês, fundos multilaterais, comissões com diárias em dólar e relatórios que ninguém lê. Resultado: a bicha continuou desaparecendo. No dia em que comunidades locais passaram a vigiar as praias de desova, vender artesanato em vez de casco, e ganhar a vida com a tartaruga viva em vez da tartaruga morta, o número de ninhos explodiu. Tradução: incentivo correto produz resultado correto. Não é mística, é aritmética da natureza humana, aquela coisa simples que os planejadores de gabinete fingem não entender porque entendê-la os deixaria desempregados.
Siga o dinheiro e a fotografia revela mais do que mil documentários da BBC. Cada dólar que entra na máquina de uma ONG internacional sai dela transformado em salário de diretor em Washington, passagem aérea executiva, conferência em hotel cinco estrelas e, no fim da cadeia, talvez, com sorte, uma placa de madeira pintada num posto de fiscalização vazio. Cada peso que o pescador equatoriano recebe diretamente do turista que vem ver o macaco-prego se converte em comida, escola para o filho, cerca para a roça e, por consequência inevitável, em macaco vivo. O primeiro modelo financia palestras sobre conservação; o segundo financia conservação. A diferença entre os dois é a diferença entre a missa e a fé.
Há aqui uma lição que nenhuma assembleia da ONU vai imprimir em folder colorido: quando a propriedade da terra, do recurso, da paisagem se aproxima de quem a habita, o cuidado aparece naturalmente, como o suor aparece no trabalho. Quando a propriedade é nebulosa, coletiva no papel e de ninguém na prática, sobra apenas o saque. Foi assim com as florestas estatizadas que viraram cinza, com os mares de todos que viraram desertos, com os rios públicos que viraram esgoto. O bicho sobrevive onde alguém, de carne e osso, tem motivo concreto para que ele sobreviva. Fora disso, o resto é discurso, e discurso não bota ovo nem alimenta filhote.
O mais saboroso desse capítulo é observar a contorção retórica dos veículos que noticiam o fato. Eles precisam, ao mesmo tempo, comemorar o sucesso e esconder a causa, porque a causa contradiz vinte anos de pregação ambientalista centralizadora. Então inventam parcerias, mencionam de raspão algum órgão público, sugerem que a Convenção tal teve papel decisivo, quando na verdade o papel decisivo foi do sujeito que dorme com a escopeta perto da rede para espantar caçador, e que faz isso porque a tartaruga é, na prática, dele. Vendem como vitória do sistema o que é, na verdade, a derrota silenciosa do sistema diante da realidade. O rei continua nu, e agora desfila orgulhoso ao lado de uma tartaruga que sobreviveu apesar dele.
A moral da fábula, se é que precisamos de moral em coisa tão evidente, é que a natureza, essa senhora antiga e paciente, não precisa de ministério para funcionar. Precisa de gente próxima, livre, responsável e com algo em jogo. Tire o burocrata da equação, devolva a decisão a quem pisa o chão, e o milagre acontece com tamanha regularidade que deixa de ser milagre. Mantenha o burocrata e suas comissões, e o que era milagre vira processo administrativo, e o processo administrativo, todos sabemos, é o método mais sofisticado já inventado para que nada jamais aconteça. Quem paga a conta da preservação verdadeira é o caboclo com seu trabalho; quem recebe os créditos no telejornal é o ministro de terno. Entre os dois, a tartaruga, sabiamente, escolheu confiar no primeiro.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.