O enredo é tão velho quanto banal. Um banco estatal, cujo caixa range como porta de cemitério, decide que sua prioridade imediata é bancar uma sala VIP no Aeroporto Internacional de Brasília, aquele recinto de almofadas, champanhe morno e canapés murchos onde o poder se autocontempla entre dois voos. O Tribunal de Contas do DF, num raro momento de lucidez, farejou o cheiro e pediu explicações. E o cidadão comum, que nunca pisou na tal sala nem pisará, descobre mais uma vez que banco público não existe para servir o público, existe para servir a quem tem crachá e voo executivo.

Observe a arquitetura do golpe, porque ela é sempre a mesma, só muda o cenário. O banco alega dificuldades financeiras, aperta correntista, encarece crédito, segura dividendo, faz cara de missa quando perguntam sobre lucros. E, simultaneamente, assina contrato milionário de patrocínio para emprestar seu logotipo a um espaço frequentado justamente pela casta que decide o destino desse banco. Traduzindo do economês para o português claro: os de cima patrocinam o conforto dos de cima, com o dinheiro dos de baixo. Chamam isso de estratégia de marca. O nome antigo, mais honesto, era propina institucional.

Siga a trilha do dinheiro e a névoa se dissipa. Quem paga? O correntista que engole tarifa, o pequeno empresário que toma crédito caro, o contribuinte do DF que capitaliza a instituição quando ela tropeça. Quem recebe? O operador do aeroporto, que fatura com o contrato; o executivo e o político, que ganham bergamota e toalha quentinha; a diretoria do banco, que colhe foto, cartão corporativo e convite para eventos onde o champanhe é gratuito para quem nunca pagou um. Entre o pagante e o beneficiário há um oceano, e nesse oceano navega uma frota de burocratas convencidos de que estão fazendo gestão moderna.

Chamam de patrocínio porque patrocínio soa nobre, evoca mecenato renascentista, arte florentina, catedral sendo erguida. Só que em Florença o Medici pagava com o próprio ouro, não com o ouro alheio extraído à força. Quando a conta sai do bolso do confiscado e entra na sala de espera do confiscador, o substantivo correto não é mecenato, é rapina envernizada. A diferença entre um assaltante e uma diretoria de estatal é que o assaltante, ao menos, não exige que a vítima bata palmas depois.

E note a comédia do argumento técnico. Dirão que o contrato traz retorno de imagem, exposição da marca, engajamento com público qualificado. Público qualificado, nessa linguagem, significa gente que não precisa do banco. Quem precisa do BRB está na fila da agência, não na sala VIP. Logo, o banco gasta para se exibir justamente para quem nunca será seu cliente no sentido real, enquanto descuida de quem paga a conta. É a velha lógica do funcionalismo que confunde empresa pública com extensão do próprio salão de festas. Se a premissa é falsa, a conclusão é lixo, por mais planilha que a maquiem.

Resta a pergunta que ninguém na Esplanada quer ouvir e que vale para cada centavo torrado em penduricalho institucional: se o banco está bem, por que precisa patrocinar sala VIP para parecer bem; se está mal, como pode se dar ao luxo de patrocinar sala VIP enquanto chora pobreza. Escolham a hipótese, ambas condenam. O Tribunal de Contas pediu explicações e fez o mínimo. O contribuinte deveria pedir o dinheiro, e isso seria o começo do justo.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.