A notícia chega embrulhada em jargão técnico, como sempre, para que ninguém leia até o fim. Tradução em português de gente: o governo descobriu dezesseis maneiras de gastar dinheiro público sem precisar pedir licença ao Orçamento, sem passar pelo crivo do Legislativo, sem expor ao contribuinte a planilha do festim. O Tribunal de Contas, esse órgão que de vez em quando acorda, chamou o arranjo pelo nome correto: orçamento paralelo. Repare na elegância do eufemismo. Não é desvio, não é caixa dois, não é manobra. É paralelo, como se duas linhas que nunca se encontram fossem fenômeno geométrico, e não exatamente o desenho de quem não quer ser pego.

O truque é antiquíssimo, e quem leu meia página de história financeira reconhece o figurino. Reis medievais que não conseguiam aprovação dos seus parlamentos para novas taxas inventavam monopólios reais, vendiam cartas régias, criavam fundos piedosos. A coroa francesa do século dezoito virou mestra nessa arte, e todos sabemos como terminou. O princípio é simples e nunca envelhece: quando o cofre oficial está sob vigilância, abre-se um cofre não oficial, batiza-se com nome respeitável, geralmente algo com a palavra desenvolvimento, amparo ou garantia, e pronto, o dinheiro flui sem perguntas inconvenientes.

A pergunta que nenhum noticiário faz é a única que importa. Quem paga e quem recebe? Paga, como sempre, o sujeito que acorda às cinco da manhã, pega ônibus lotado, vê um terço do salário evaporar em tributo antes mesmo de chegar à conta, e ainda recebe a fatura embutida em cada litro de gasolina, em cada quilo de arroz, em cada conta de luz. Recebe quem tem CNPJ amigo, quem tem advogado de porta giratória, quem financia campanha, quem aparece nas fotos do gabinete sorrindo de gravata bem cortada. Fundo público é palavra mágica que transforma confisco em benemerência e clientelismo em política social. Mude o adjetivo, mantenha o substantivo, e o roubo vira investimento estratégico.

Há uma lógica de ferro nisso tudo, e ela é mais constrangedora do que qualquer denúncia. Se o Orçamento aprovado pelo Congresso fosse suficiente para realizar as tais políticas públicas, não haveria necessidade de dezesseis bypass. Se houve necessidade de dezesseis bypass, é porque o que se quer fazer não passaria no escrutínio normal. Ou seja, o próprio governo, por seus atos e não por suas palavras, confessa que opera fora do que seria minimamente defensável à luz do dia. Julgue a árvore pelos frutos, não pelo folheto do viveiro. E os frutos aqui são opacidade, discricionariedade e a velha conhecida de sempre, a conta no final do mês para quem nunca foi convidado a opinar.

O detalhe mais saboroso do escândalo é justamente sua banalidade. Não há aqui um gênio do mal arquitetando uma fraude inédita. Há a rotina monótona de um aparato que aprendeu, governo após governo, que transparência é inimiga da governabilidade, e que a melhor maneira de transformar dinheiro alheio em poder próprio é multiplicar caixas, siglas e regulamentos até que nem o auditor mais paciente consiga rastrear o caminho do real. Chamam isso de complexidade do Estado moderno. O nome verdadeiro é mais curto, tem cinco letras e começa com R, mas a imprensa séria prefere não usar.

Enquanto isso, o cidadão é convidado a se emocionar com o último pronunciamento sobre justiça social, equidade e combate à desigualdade. Discurso lindo, sempre foi. Só que a régua honesta de qualquer governo não está no que ele declama do palanque, está em quem assina o cheque e em quem desconta. Os dezesseis fundos respondem essa pergunta sem precisar de muita interpretação. Pagamos todos, recebem alguns, e a conta segue rolando enquanto o teatro continua. O rei está nu, o Tribunal apontou o dedo, e a plateia, treinada em décadas de paciência bovina, aplaude o figurino imaginário.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.