O episódio é pequeno, quase doméstico, e por isso mesmo revelador. Um senador da República sente um mal súbito, é internado às pressas, e o desfecho jornalístico não envolve prognóstico clínico, envolve uma técnica de enfermagem afirmando ter apanhado dentro do quarto de hospital. Ele, do outro lado, alega falha no atendimento. Há sempre uma versão do paciente e uma versão de quem cuida do paciente, e há sempre, invisível, uma terceira versão que ninguém conta: a de quem paga a conta inteira da cena, do leito ao avental, da escolta ao silêncio institucional que virá em seguida.
Comecemos pelo óbvio, que é justamente o que ninguém quer enxergar. A figura pública que ocupa cadeira no Senado não é um cidadão comum num pronto socorro qualquer. É um agente do monopólio da força que dispõe de plano de saúde custeado por quem trabalha, de auxílio moradia, de verba de gabinete, de imunidade material e de uma aura de intocabilidade construída em décadas de ritualística republicana. Quando alguém com esse cinturão de privilégios diz que foi maltratado, o reflexo da imprensa cortesã é abrir os ouvidos. Quando uma técnica de enfermagem diz que foi agredida, o reflexo é exigir laudo, testemunha, câmera, gravação, sangue e, de preferência, advogado pago do próprio bolso modesto.
Sigamos a trilha do dinheiro, porque ela sempre conduz à porta certa. A diária hospitalar de internações de autoridade não sai do bolso da autoridade. Sai de um arranjo opaco que mistura plano corporativo, fundo público, convênio parlamentar e, na ponta, o imposto descontado do salário de quem nunca pisou no Senado e jamais pisará. A enfermeira que está ali, em pé, há doze horas, recebe um salário esmagado pela carga tributária que sustenta o conforto do paciente ilustre. É um circuito perfeito de extração: ela trabalha, paga imposto, e o imposto vira a almofada do homem que, segundo ela, levantou a mão. A história é antiga, só muda o cenário; nas cortes de antigamente, o súdito também era espancado pelo nobre e ainda tinha que agradecer pela honra.
Há quem diga que é cedo para julgar, que precisamos esperar a apuração. Concordo, em tese, com a calma processual. Mas observe a assimetria do tratamento. Se a denúncia partisse do senador contra um cidadão comum, já haveria boletim de ocorrência viralizado, comissão parlamentar improvisada, nota de solidariedade da bancada e até projeto de lei batizado com o nome do ofendido. Como a denúncia parte da mulher de jaleco contra o homem de mandato, o assunto entra naquela neblina conveniente em que tudo vira mal entendido, estresse do momento, cansaço do paciente, exagero da profissional. A balança da Justiça pesa diferente conforme o peso institucional de quem sobe nela, e isso não é falha do sistema, isso é o sistema.
O detalhe mais saboroso é a queixa do senador contra a falha no atendimento. Falha, ora. O homem que vota orçamento, aprova ministro, sustenta a estrutura inchada do Ministério da Saúde, legisla sobre piso salarial da enfermagem e blinda o corporativismo de Estado, descobre, num susto noturno, que o aparato que ele ajudou a construir não funciona como ele gostaria. É como o incendiário que reclama da fumaça. Toda a engrenagem que sufoca o profissional de ponta, com salário ruim, plantão duplo, burocracia kafkiana e gestão de cabide, foi montada e mantida por gente que está exatamente naquela cadeira. Quando a engrenagem moe quem a alimenta, dá vontade de aplaudir a ironia, ainda que o aplauso seja amargo.
No fim, quem paga e quem recebe? Paga a técnica de enfermagem, com o salário, com o corpo e agora, talvez, com a reputação destruída pela máquina de relações públicas que protege o cliente importante. Paga o contribuinte, que financia o leito, o gabinete, o avião, a escolta e o departamento jurídico que vai cuidar do constrangimento. Recebe o senador, em conforto e em proteção midiática, e recebe a casta inteira, que mais uma vez encena o teatro segundo o qual servidor público é vítima eterna e cidadão produtivo é suspeito permanente. O rei passou mal, deu um tapa, e mandou a fatura para a sua casa. Sorria, porque pelo menos o riso ainda é gratuito.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.