O pré-candidato ao governo de São Paulo abriu o jogo numa frase que merecia ser emoldurada nas paredes de qualquer escola de ciência política séria, se ainda existisse alguma. Disse, com a naturalidade de quem comenta o cardápio do almoço, que tem quatro ex-ministros disponíveis para compor a chapa: ele mesmo, a senadora do MDB, a ministra do Meio Ambiente e o titular dos Portos e Aeroportos. Quatro. Como se ex-ministro fosse credencial de competência administrativa, e não diagnóstico clínico de quem passou anos dependendo do contracheque federal para pagar o aluguel.
Repare na escolha das palavras, porque as palavras nunca são inocentes quando saem da boca de candidato. Disponíveis. O verbo trai o método. Disponíveis para quê, exatamente? Para servir o paulista que nunca pediu nenhum dos quatro, ou para acomodar quadros do mesmo arranjo partidário que precisa estacionar gente em algum lugar antes da próxima eleição presidencial? A vitrine não engana ninguém que já viu uma loja de departamento na liquidação de fim de ano. O que se anuncia como abundância de talento costuma ser, na prática, excesso de estoque parado.
Vale a pena fazer uma conta simples, dessas que ninguém faz porque dá vergonha do resultado. Some os salários, as verbas de gabinete, as cotas parlamentares, os assessores, os carros oficiais, as diárias e as aposentadorias cruzadas que esses quatro nomes acumularam ao longo das últimas duas décadas vivendo do orçamento público. O número assusta. E ele não vem do céu nem da generosidade do candidato; vem do imposto que o dono da padaria recolhe antes de saber se vai conseguir pagar a conta de luz no fim do mês. A chapa dos disponíveis é, antes de tudo, a chapa dos historicamente bem remunerados pelo contribuinte.
Há aqui uma confusão lógica que precisa ser dissolvida com paciência. Ter sido ministro não prova que se governa bem; prova apenas que se foi indicado por alguém em algum momento. A premissa de que cargo passado equivale a competência futura é o tipo de salto que reprovaria qualquer aluno de primeiro semestre. Se o critério fosse honesto, listariam o que cada um deles efetivamente entregou ao país enquanto operava a máquina, com balanço, custo, resultado mensurável. Não listam, claro. Listam o currículo, porque o currículo é o que sobrou depois que os resultados evaporaram.
O paulista, esse contribuinte que sustenta sozinho um terço da arrecadação nacional e recebe de volta a metade em forma de buraco na rua e fila de hospital, deveria estranhar a oferta. Quem oferece quatro ex-ministros como solução está implicitamente confessando que o problema só pode ser resolvido pelo mesmo aparato estatal que criou o problema. É o bombeiro que se candidata oferecendo gasolina, é o médico que receita a doença. A mística do gestor experiente serve para naturalizar o que deveria escandalizar: a ideia de que governar é profissão hereditária dentro de uma casta que nunca sai do orçamento, apenas troca de assento.
No fim das contas, a frase do pré-candidato é mais sincera do que ele gostaria. Ela revela que a disputa eleitoral em São Paulo não se trava entre projetos de Estado, mas entre arranjos de acomodação de pessoal. A chapa dos quatro disponíveis é o organograma de uma estrutura que já decidiu quem vai mandar antes mesmo de perguntar ao eleitor. Resta saber se o paulista, esse animal teimoso e às vezes perspicaz, vai aceitar o cardápio que lhe servem ou se vai finalmente perguntar a única coisa que importa em qualquer transação política: quem está pagando essa conta, e para o bolso de quem ela está indo.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.