Choveu granizo em Mairinque e São Roque na tarde de sábado, pedras de gelo do tamanho de ovo de codorna esburacando telhas de barro, rajadas de vento arrancando o que não estava pregado, moradores filmando o quintal virar piscina com a mesma resignação de quem já entendeu que o céu avisa menos que a Receita Federal. A Defesa Civil estadual, sempre célere quando o assunto é emitir nota, informou que não houve vítimas. Ótimo. Faltou informar também quem vai pagar o telhado novo do senhor que mora ao lado do posto, já que ele paga IPTU há trinta anos sem atraso.

Repare na coreografia. O cidadão é tributado na casa, no carro, no combustível que move o carro, no pão que come depois de voltar do carro, no sal que põe no pão, no imposto embutido no sal. Tudo isso, diz a cartilha da escolinha, serve para custear serviços essenciais, entre os quais figura, com destaque de manchete, a famigerada proteção civil. Vem o temporal, e o que o morador recebe em troca da dízima perpétua? Um comunicado. Um boletim. A informação, cortês, de que ele não morreu. Gratíssimo, excelência.

A mecânica é antiga e funciona há séculos sob disfarces variados. O suserano medieval cobrava o dízimo jurando que, em troca, defenderia o servo do lobo, do bárbaro e da peste. Quando o lobo chegava, o suserano estava na caçada, quando o bárbaro chegava, o suserano estava em banquete, quando a peste chegava, o suserano recomendava orações. O servo pagava, rezava e morria. Mudaram os trajes, trocaram o brasão pelo logotipo institucional, puseram gravata no feudatário e chamaram isso de modernidade. O dízimo virou alíquota, a capela virou secretaria, o lobo virou granizo, e o servo continua arcando com o telhado sozinho.

Há, claro, o argumento de que ninguém controla o clima, e é verdade. Só que o tributo foi vendido justamente sob a promessa de amortecer aquilo que o cidadão sozinho não conseguiria enfrentar. Se o aparato não amortece o granizo, não previne a enchente, não desobstrui o bueiro, não poda a árvore que cai no Corsa do vizinho, então para que serve? A resposta honesta doeria, por isso preferem a resposta institucional, que consiste em mandar um carro da Defesa Civil tirar foto do estrago para o relatório anual que justificará o orçamento do ano seguinte. O estrago vira insumo burocrático. A telha quebrada alimenta a planilha.

O morador de Mairinque que hoje varre cacos de telha do quintal está, sem saber, financiando três camadas de funcionários públicos que acabam de descobrir, pela janela do gabinete, que existe um fenômeno chamado chuva. Vão pedir mais verba, mais viaturas, mais cargos comissionados para enfrentar a emergência climática, palavra mágica que abre cofres como abracadabra abria cavernas. E no próximo temporal, garanto, o script se repetirá com a pontualidade de liturgia, o comunicado solene, a ausência de vítimas como troféu, a conta do conserto saindo do bolso de quem já pagou pelo serviço que nunca recebeu.

Fica a pergunta que ninguém na repartição quer responder, aquela que corrói a legitimidade de todo arranjo quando formulada em voz alta. Se o cidadão tivesse em mãos tudo o que lhe é extraído mensalmente em nome da proteção coletiva, bastariam duas horas de internet para encontrar um seguro residencial robusto, telhas de impacto, uma árvore podada e ainda sobraria para um churrasco. O que ele recebe em troca, hoje, é um telefonema da vizinha avisando que a marquise caiu. Quem paga, sempre o mesmo. Quem recebe, nunca o mesmo. E o granizo, ao menos, tem a honestidade de avisar com trovão.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.