As ações da Tenda amanheceram sangrando na B3 e a imprensa especializada, sempre tão criativa quando o assunto é achar culpado que não seja o Estado, correu para falar em "realização de lucros", "rotação setorial", "ajuste técnico". Quer dizer, o vocabulário de sempre para não dizer o que salta aos olhos de qualquer um que saiba ler um balanço. A Tenda é uma construtora que fez do Minha Casa Minha Vida a sua espinha dorsal, e toda vez que Brasília espirra sobre os parâmetros do programa, sobre o teto de renda, sobre o subsídio do FGTS, sobre a taxa cobrada da Caixa, o papel da empresa treme como vela ao vento. Isso não é bolsa. Isso é termômetro do humor do burocrata.
O modelo é conhecido e vale a pena descrever sem eufemismo. O governo decide que vai "resolver" o déficit habitacional injetando dinheiro do trabalhador, via FGTS, e do contribuinte, via Tesouro, dentro de um circuito fechado onde construtora específica produz unidade específica para faixa específica de renda, com preço tabelado e margem calibrada por planilha em algum gabinete. A empresa que se especializa nesse nicho não compete de verdade com ninguém: compete pela atenção do formulador de política pública. O cliente final não escolhe, o preço não é descoberto pelo mercado, e o risco de crédito, veja que beleza, fica pendurado no fundo do trabalhador. Nada disso é capitalismo. É um arranjo corporativista com fachada de bolsa de valores.
Enquanto o dinheiro fácil escorria, todo mundo aplaudia. A ação subiu, os fundos compraram, os analistas escreveram relatórios ternos sobre "posicionamento estratégico no segmento popular", e a diretoria embolsou bônus atrelado a resultado que era, na origem, transferência de renda dos outros. Agora que a taxa de juros longa não colabora, que o Tesouro anda apertado, que o custo de obra sobe mais rápido do que o teto do programa consegue acompanhar, a mágica se dissolve. E o mercado, que fingiu por anos não ver a dependência, finge agora um susto ainda maior. É a mesma cena de sempre: o lucro é privatizado no bônus da diretoria, o prejuízo é socializado no minoritário que acreditou na narrativa.
Há uma lição antiga aqui que a praça financeira insiste em esquecer a cada ciclo. Toda expansão que nasce de crédito subsidiado, de juro artificial, de demanda fabricada por decreto, termina exatamente onde tinha que terminar: numa correção que dói mais quanto mais tempo foi adiada. O que se vê é o canteiro de obra, o emprego do pedreiro, a chave entregue na cerimônia com ministro sorrindo. O que não se vê é o poupador que financiou tudo isso a juro real negativo, o pequeno construtor que não teve acesso ao balcão, o consumidor de outra faixa que pagou mais caro pelo cimento sugado pela demanda pública, e agora o acionista pulverizado que segura o mico quando a maré vira.
Existe ainda o detalhe moral, que ninguém quer discutir. Uma empresa listada que vive de programa de governo não é empresa privada em sentido pleno; é concessionária informal de uma política pública. Colocá-la na bolsa como se fosse companhia de tecnologia, ou varejista competitiva, ou banco disputando cliente na esquina, é vender ao investidor de varejo um produto travestido. O sujeito acha que está comprando participação num negócio; está comprando, na verdade, uma opção sobre a boa vontade do próximo ministro das Cidades. E opção sobre boa vontade de político, todo mundo que já viveu no Brasil sabe, vira pó com uma canetada.
Que sirva de aula para quem tem olhos de ver. Enquanto o país insistir em construir setores inteiros da economia em cima de subsídio, teto, incentivo, funding carimbado e proteção regulatória, teremos sempre essas empresas frankensteins, meio privadas meio estatais, que sobem quando o Planalto sopra e desabam quando o Planalto tosse. A queda da Tenda hoje não é um evento isolado nem um azar de calendário. É o preço, pago com atraso e com juros, da ilusão de que dá para terceirizar para o Estado a tarefa de criar prosperidade. Não dá, nunca deu, e o gráfico do dia está aí para lembrar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.