A Tenet Healthcare subiu ao palco da conferência do Wells Fargo com o sorriso de quem acabou de vender a mãe e recebeu bônus por isso. A empresa passou os últimos anos se desfazendo de hospitais gerais, aqueles caros, complicados, cheios de pronto-socorro que ninguém quer administrar, e concentrou fichas na United Surgical Partners International, sua divisão de centros cirúrgicos ambulatoriais. Traduzindo do corporativês para o português: largaram o trabalho sujo de atender pobre com bala alojada e ficaram com o filé mignon da ortopedia eletiva, da cardiologia programada, do procedimento espinhal que rende cinco dígitos por paciente. Wall Street adorou. A ação subiu. E ninguém na sala perguntou a coisa mais óbvia do universo: por que raios está tão lucrativo cortar gente em regime de fábrica?

A resposta está escondida naquele lugar que ninguém quer olhar, o balcão do Medicare e das seguradoras cativas do sistema americano. Quando você tem um pagador terceirizado, seja o governo, seja a operadora do plano do empregador, o paciente para de ser cliente e vira insumo. Ninguém pergunta preço, ninguém compara, ninguém negocia. O médico prescreve, o hospital fatura, o burocrata carimba, e a conta chega para o contribuinte que nem sabe que está pagando. Nesse arranjo, o incentivo é cristalino: quanto mais complexo o procedimento, maior o reembolso, maior a margem. A Tenet não é vilã da história, é apenas o aluno mais aplicado de um sistema desenhado para premiar exatamente esse comportamento.

Veja a beleza do esquema. A empresa vende as unidades deficitárias, aquelas que atendiam de graça, aquelas que carregavam o peso da urgência, aquelas que teriam de fechar caso o governo cortasse repasse. Fica com os centros ambulatoriais, blindados por contratos, subsidiados por reembolso federal generoso, protegidos por barreiras regulatórias que impedem qualquer clínica independente de competir. É o capitalismo de compadrio em estado puro, embrulhado no papel celofane da eficiência operacional. E o mercado financeiro, que deveria ser o vigia natural desses arranjos, aplaude, porque o mercado financeiro americano parou de precificar risco de longo prazo faz tempo e só olha para o próximo trimestre.

Enquanto isso, a conta que ninguém vê continua correndo. O Medicare americano queima quase um trilhão e meio de dólares por ano e vai à falência atuarial antes de 2035, segundo os próprios relatórios do Tesouro. Cada procedimento eletivo faturado a preço de ouro numa unidade Tenet é um pedacinho a mais do rombo que vai ser socializado. O funcionário que ganha salário mínimo em Ohio paga imposto para bancar cirurgia de joelho de aposentado da Flórida, executada num centro que distribui dividendo para acionista em Nova York. Chamar isso de sistema de saúde é generoso. É mais honesto chamar de bomba de sucção fiscal com uniforme branco.

O que a Tenet está sinalizando ao mercado é o que qualquer observador atento já sabia: no capitalismo americano contemporâneo, o negócio da vez não é competir por consumidor, é capturar o fluxo de dinheiro público. Quem entende isso primeiro vende hospital de periferia, compra centro cirúrgico premium, cobra o triplo pelo mesmo procedimento e ainda posa de inovador na conferência do banco. Quem não entende continua achando que existe mercado livre em saúde nos Estados Unidos. Não existe. Existe um cartel gigantesco, montado sobre regulação, protegido por lobby, alimentado por reembolso público, e a Tenet acaba de dar aula de como extrair o máximo dessa vaca até ela morrer.

Quando o rombo estourar, e vai estourar, ninguém vai lembrar do dia em que uma empresa listada explicou, com PowerPoint colorido, que seu modelo de negócio era arbitrar a burrice do pagador estatal. Vão culpar a ganância dos capitalistas, pedir mais regulação, mais controle de preços, mais intervenção. E o ciclo recomeça, porque a lição que a história econômica repete desde sempre continua sem ser aprendida: sempre que o governo entra pagando, o preço sobe, a qualidade cai e alguém, em algum lugar, monta o esquema perfeito para faturar em cima do desastre anunciado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.