Imagine a cena. Um pelotão de soldados americanos sentado em cadeiras de campanha, óculos escuros baratos no rosto, a poucos quilômetros de uma bomba de quiloton incalculável que vai ser detonada para que a tropa "se acostume" com o cogumelo. Do outro lado do planeta, a estepe do Cazaquistão recebe quatrocentos e cinquenta e seis explosões, e as crianças nascidas nos vilarejos próximos passam a colecionar tumores como quem coleciona figurinhas. Essa é a fotografia inicial, e ela já responde meio caminho da pergunta inevitável. Quem pagou? O camponês cazaque com a tireoide. O fazendeiro de Utah com o gado morto. O contribuinte de Saint Louis com o estrôncio noventa depositado nos dentes de leite do filho. E quem recebeu? Os de sempre.
É preciso entender a engenharia financeira da brincadeira para não cair na narrativa romântica do "esforço de guerra" e da "corrida pela sobrevivência". A bomba não cai do céu, ela cai do orçamento. Cada teste atmosférico envolvia uma cadeia de fornecedores, empreiteiras, laboratórios federais, universidades contratadas, mineradoras de urânio operando em terras indígenas a preço de banana, transportadoras, construtoras de bunkers, fabricantes de filme fotográfico de alta sensibilidade, e uma legião de funcionários públicos vitalícios que precisavam justificar o próprio salário renovando a ameaça. A indústria do medo tem balanço auditado, e o auditor é o mesmo sujeito que assina o cheque. Conveniente.
O silogismo é vulgar de tão simples. Toda explosão atmosférica libera material radioativo na biosfera. O material radioativo na biosfera atinge populações que não autorizaram nada. Logo, cada teste foi uma agressão massiva contra a propriedade alheia, contra o corpo alheio, contra a vida alheia, sem contrato, sem indenização, sem julgamento. Em qualquer outra esfera da vida, isso teria nome no código penal. Quando o autor é fardado e tem orçamento aprovado pelo congresso, vira "dissuasão estratégica". O verniz semântico é a mais barata das tecnologias, e a mais lucrativa.
Note a simetria perfeita entre Washington e Moscou, e perceba que a inimizade entre os dois figurões era operacionalmente útil para os dois figurões. Quanto mais os soviéticos detonavam na Nova Zembla, mais o complexo militar industrial americano justificava novos contratos no Nevada. Quanto mais os americanos detonavam no Atol de Bikini, expulsando nativos que até hoje não voltaram para casa, mais o aparato soviético cobrava do mujique faminto a próxima rodada de aço, plutônio e propaganda. O suposto antagonismo era um cartel. Os dois lados precisavam um do outro como o açougueiro precisa do boi, e o boi, em ambos os casos, era o cidadão comum que pagava imposto sem saber que financiava o próprio envenenamento.
A ciência da época, aliás, sabia. Os relatórios internos sobre lluvia radioativa, sobre césio em pastagens, sobre iodo na glândula tireoide das crianças, circulavam em papel timbrado oficial muito antes de qualquer jornal ousar publicar. Foram classificados, foram engavetados, foram negados em entrevistas coletivas onde generais sorridentes garantiam, com a mesma desenvoltura do vendedor de óleo de cobra, que tudo estava sob controle. Décadas depois, vieram as indenizações pingadas, os reconhecimentos burocráticos, os "downwinders" recebendo migalhas judiciais enquanto os arquitetos do espetáculo já tinham morrido condecorados, com pensão integral e nome em rua. O contribuinte pagou o crime, pagou o silêncio, pagou a indenização, e ainda paga a estátua do criminoso. Tetra campeão da otárioíce.
Resta a moral da história, que é sempre a mesma e por isso ninguém quer ouvir. Quando se concede a um aparato a permissão de explodir o que quiser, onde quiser, em nome de uma ameaça abstrata definida por ele mesmo, o resultado não é segurança, é fatura. Fatura em corpos, em desertos esterilizados, em oceanos contaminados, em gerações marcadas geneticamente por uma decisão que nunca foi submetida a quem teria de carregá-la. A fotografia do cogumelo nuclear é bonita, hipnótica, quase artística. É também a imagem mais cara já produzida pela humanidade, e o boleto continua aberto. Quem paga, paga calado. Quem recebe, recebe condecorado. Mude os nomes, troque a década, e o enredo se repete em qualquer pretexto novo que aparecer amanhã na manchete.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.