Oitenta e um milhões e quatrocentos mil dólares. Esse é o tamanho do chapéu que o jornal britânico passou na plateia norte-americana no último exercício, o melhor resultado da operação ianque em quinze anos. Não é assinatura, repare bem. É doação. O leitor abre a carteira voluntariamente para sustentar uma redação que passa o ano dizendo a ele que o capitalismo é doente, que a propriedade privada é violência estrutural e que o sujeito branco de classe média é a raiz de todos os males do planeta. E o sujeito branco de classe média sorri, agradece a flagelação e transfere mais cinquenta dólares no cartão. Existe modelo de negócios mais engenhoso na história do jornalismo?

Vale a pena olhar a coreografia com lupa, porque ela tem nome técnico em outros tempos. Chamava-se indulgência. O fiel pecava a semana inteira, aparecia na sacristia no domingo, depositava a moeda na caixinha e saía com a alma lavada, autorizado a voltar a pecar na segunda. O leitor do jornal em questão faz exatamente o mesmo. Trabalha em fundo de investimento em Manhattan, mora em apartamento de três quartos no Brooklyn que custa o PIB de uma cidade pequena, manda o filho para escola particular de quarenta mil dólares ao ano e, à noite, doa para um veículo que denuncia diariamente a desigualdade que ele próprio encarna. A doação não é jornalismo. É absolvição. E como toda absolvição vendida no balcão, custa caro e não funciona.

Siga o dinheiro, que ele sempre conta a verdade que a manchete esconde. As doações vêm em peso de três cidades, Nova York, São Francisco e Los Angeles, exatamente as praças onde se concentra o capital financeiro, o capital tecnológico e o capital do entretenimento. Quem paga o salário do repórter que escreve contra os bilionários é, em larga medida, o próprio bilionário ou seu funcionário graduado. Há aqui um silogismo que dispensa rebuscamento. Se a publicação ataca o capital, e o capital sustenta a publicação, então ou o ataque é encenado, ou o capital é suicida. Como bilionário suicida é fenômeno raro, sobra a primeira hipótese. O ataque é a mercadoria, e a mercadoria é vendida justamente a quem deveria ser a vítima do ataque. O leitor compra o chicote e pede para apanhar.

Há ainda a camada institucional, que ninguém comenta porque dá trabalho ler relatório financeiro. A operação americana é estruturada como entidade sem fins lucrativos, o que significa, em bom português, que o doador abate imposto da declaração. Ou seja, parte daqueles oitenta e um milhões é, na prática, dinheiro que deixou de entrar no tesouro federal. O contribuinte que não doa nada, o motorista de caminhão em Ohio, a balconista no Texas, esses estão financiando indiretamente, via renúncia fiscal, um jornal que os despreza, os chama de deploráveis e atribui a eles a culpa por cada infortúnio do mundo civilizado. O confisco encontrou o seu formato mais elegante. Não tira da carteira do pobre para dar ao rico, tira da carteira do pobre para dar ao rico que finge ser pobre.

O recorde tem ainda uma função pedagógica que merece registro, porque é dela que sai o próximo capítulo. A imprensa tradicional virou ruína nos últimos vinte anos não por conspiração, mas por motivo prosaico, perdeu o monopólio da narrativa quando qualquer adolescente com celular passou a poder publicar. Diante da ruína, restaram dois caminhos honestos, cortar custos ou cobrar pelo conteúdo. O jornal britânico inventou o terceiro, transformar militância em produto premium e cobrar pela catequese. Funcionou. E quando uma fórmula funciona, ela se replica. Espere ver, nos próximos anos, uma multiplicação de redações financiadas por doação, todas convenientemente alinhadas com o gosto do doador médio, que é urbano, diplomado, progressista e culpado. Jornalismo independente, dirão. Independente coisa nenhuma. Dependente de uma clientela específica, com uma agenda específica, e portanto obrigado a entregar exatamente o produto que essa clientela compra. Quem manda no jornal não é mais o anunciante. É o doador. E o doador é mais exigente que o anunciante, porque o anunciante quer audiência, e o doador quer espelho.

Voltemos à pergunta inicial, que é a única que importa. Quem paga e quem recebe? Pagam os ricos progressistas das três metrópoles costeiras, com desconto fiscal generoso bancado pelo contribuinte comum. Recebem os jornalistas, os editores e os executivos da operação, com salários que envergonhariam qualquer revolucionário sincero. No meio do caminho, a opinião pública americana recebe uma dose diária de catequese ideológica disfarçada de reportagem, e a alma do doador recebe o adesivo de boa consciência colado na testa. Todos ganham, dizem eles. Todos não. Perde quem ainda acreditava que jornal existia para apurar fato. Esse, faz tempo, foi excluído do orçamento.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.