Há um padrão tão velho quanto a política das multidões, e ele se repete com a pontualidade de um relógio suíço toda vez que um ativista vira celebridade internacional. Primeiro vem a causa nobre, embalada em bandeira, lágrima e hashtag. Depois vem a coleta de doações, os jantares de gala, as entrevistas internacionais, o passaporte carimbado de heroísmo. E no fim, quando a maquiagem escorre, vem sempre a mesma notícia desconfortável saindo pela porta dos fundos: o santo, na verdade, tinha mãos bem menos santas do que anunciava o palanque. O caso do ativista brasileiro citado nas denúncias de má conduta sexual dentro da flotilha pró-Palestina que partiu de Barcelona é só o capítulo mais recente de um roteiro que o público já deveria conhecer de cor.
Vejam o tamanho da farsa e como ela se sustenta. Monta-se uma expedição marítima, com barcos caros, combustível caro, logística cara, assessoria de imprensa carésima, e diz-se ao mundo que aquilo é um gesto espontâneo de solidariedade humanitária. Ninguém pergunta quem paga. Ninguém pergunta quem recebe. Ninguém pergunta por que precisamente esses rostos, e não outros, estão na foto. Quando se segue o rastro do dinheiro nessas flotilhas, encontra-se sempre o mesmo cardápio de oenegês acopladas a governos, fundações filantrópicas de bilionários que flertam com a geopolítica, sindicatos europeus ensebados de verba estatal e um punhado de tesoureiros obscuros que vivem de causas alheias. A causa palestina, aqui, é pretexto; o navio é palanque; o ativista é produto.
E o produto, como todo produto de marketing, precisa de uma embalagem. Daí nasce a figura do ativista-celebridade, esse híbrido de ator de novela e padre medieval vendendo indulgências. Ele posta vídeos de olhos marejados, grava áudios dramáticos no meio do oceano, aparece algemado nas fotos certas e, ao retornar, faz tour de entrevistas cobrando cachê moral por ter sofrido pela humanidade. A fábrica de santos laicos funciona assim: escolhe um rosto fotogênico, infla de simbolismo, protege da crítica com o escudo da vítima e, quando o esquema começa a ranger, acusa quem pergunta de estar a serviço do inimigo. Funciona até parar de funcionar.
Só que há um detalhe que os produtores desse teatro sempre subestimam. A lógica é impiedosa e não respeita bandeira. Se o homem defende causas nobres com uma mão enquanto a outra mão faz o que não se pode dizer em público, o problema não é a causa, é o homem. Uma coisa não lava a outra. Doar sangue na terça não autoriza assediar na quarta. Posar de pacifista em Barcelona não é álibi para nada. A virtude não se acumula como milhas aéreas, resgatáveis em pecadilhos convenientes. Essa confusão entre militância e caráter é o cimento barato com que se constroem os ídolos políticos modernos, e é por isso que eles caem com tanta facilidade ao primeiro vento de realidade.
O mais revelador, no entanto, é o silêncio cúmplice das mesmas claques que transformaram o sujeito em ícone. Quando a denúncia parte de mulheres dentro do próprio movimento, daquelas que compartilhavam convés, bandeira e megafone, o time que até ontem exigia acreditar em todas as vítimas começa a pedir provas, contexto, calma, nuance, cuidado para não prejudicar a causa maior. Tradução honesta: a vítima só é sagrada quando acusa o inimigo certo. Se acusa o aliado, vira inconveniente, histérica, provocadora, agente do outro lado. É o velho truque do moralismo seletivo, que cobra de fora o que protege dentro, e que consegue a proeza de ser simultaneamente indignado e chantagista.
No fim das contas, sobra a pergunta que desmonta o espetáculo inteiro. Quem pagou a passagem, o barco, a assessoria, o palanque internacional desse ativista? E quem recebe em prestígio, em cargo futuro, em livro, em palestra, em candidatura travestida de causa? Responder essas duas perguntas com honestidade é mais revolucionário do que qualquer flotilha, porque exige olhar para o rei sem a roupa bordada pela imprensa amiga e admitir o óbvio: por baixo do manto humanitário, costuma haver um corpo bem mais nu e bem menos nobre do que o figurino anuncia. O navio zarpa cheio de virtude e atraca cheio de processos. Não é azar, é método.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.